Notas de um regresso a Moçambique - A 24ª viagem
A última ida a Moçambique, a 24ª, que ficou marcada pela segunda vaga de inundações da intensa e extrema temporada chuvosa de 2025 – 2026, foi sobretudo uma viagem de regressos. E também de uma ou de outra descoberta e de um cancelamento. Uns dias programados numa então muito molhada Vila Praia do Bilene não chegaram a acontecer, até porque a circulação na Estrada Nacional 1, que o Governo calcula estar em condições más ou precárias em 1179 dos seus 2477 quilómetros, continuava condicionada. Acabou por ser esta uma estadia por Maputo e arredores e pela Ponta do Ouro, a praia mais a sul de Moçambique, a poucos quilómetros da fronteira sul africana de Kosi Bay. Eis algumas notas soltas das três semanas de estadia.
Um concerto do MMM – Mozambique Music
Meeting
A chuva fez estragos logo à chegada: cheias na
Baixa de Maputo, um apagão de várias horas em algumas zonas da cidade e o
adiamento, para o dia seguinte, um domingo, de um dos concertos da terceira
edição do MMM – Mozambique Music Meeting, um festival e mercado de música criado
em 2019 e dedicado à música moçambicana e lusófona. Do Centro Cultural Franco
Moçambicano (edifício de 1898 que em tempos foi o Hotel Clube) transferiu-se o
evento para o Black Mamba, no centro comercial Baía Mall. E ali subiram ao
palco a portuguesa Marta Pereira da Costa, a italiana Celeste Caramanna, que
canta em português do Brasil clássicos daquele país, ou os moçambicanos Timbila
Groove Band, um grupo de Inhambane. Mais informações sobre o festival e edições futuras no site.
Um regresso à Macaneta e à Casa de Vidro
Esteve debaixo de água no último mês de Janeiro a
península-quase-ilha da Macaneta, praia a cerca de uma hora de Maputo, e também
uma parte da Casa de Vidro, um ecocentro construído por iniciativa de Carlos Serra e da sua cooperativa Repensar. Neste regresso a Moçambique voltei lá,
para me reabastecer de jam de manga e de ananás, feito no local e uma
das formas de ajudar a financiar o projecto. Encontrei a casa construída com
mais de 200 mil garrafas descartadas no meio ambiente já reabilitada, com o
mural de Ania Pangane, dedicado aos macacos de cara preta que habitam por ali, acabado de pintar. E também cheia de crianças da turma de inclusão na hora do lanche. Antes
disso, o almoço foi no restaurante do Macaneta Beach Resort, que não tem carne
de vaca na ementa por ser de uma família hindu. Foi fundado em 1972 e por lá
encontrei agora o actual proprietário, filho do dono original.
Uma ida à Catembe e um almoço n´ O Farol
Passou a ser mais fácil ir de Maputo à Catembe desde
a inauguração da ponte construída pela China Road and Bridge Corporation, a 10
de Novembro de 2018, o maior investimento numa infraestrutura em Moçambique
depois da independência. Vale a pena atravessá-la: para um almoço n’ O Farol,
que tem na ementa camarões fritos ou cabeças de lula, para ver Maputo do lado
de lá da baía, para ficar pela praia a ver a chegada das redes de pesca.
Quatro horas a rir no Teatro Gungu
Uma ida ao Teatro Gungu, a companhia de Gilberto
Mendes há 33 anos em actividade (já aqui e aqui contei a sua história), anima qualquer
estadia em Maputo. E desta vez animou a dobrar, primeiro na companhia de um
grupo de 13 e depois, a peça em cena quase a terminar, com alguém que ainda não
tinha conseguido ir ver. Ao palco subia por esses dias A Grande Família, que
tinha estreado a 12 e Dezembro de 2025, e personagens como o mano Milton, Físico
Nuclear, a irmã Rosa, militar, a irmã Lulu, acabada de chegar de Portugal e suposta
travel designer, ou o mano Baltazar, nhonguista, que é como em
Moçambique se chama a alguém que trabalha à comissão (nhonga) e que é
assim uma espécie de intermediário informal. Seguiu-se Kulaya, actualmente
em cena e a 111ª produção da companhia, uma versão masculina
da prática tradicional que em Moçambique prepara as mulheres para o casamento e
a vida a dois.
Um regresso ao Núcleo de Arte
No número 144 da Rua da Argélia pode o visitante
encontrar uma galeria de arte, ateliers com as obras que vão sendo produzidas pelos
artistas associados em exposição e um restaurante e bar onde é habitual haver
música ao vivo (o programa vai sendo divulgado na página no Facebook). Trata-se
do Núcleo de Arte, onde desta vez conheci Nhez Nguenha, um dos jovens artistas de
um colectivo fundado em 1936. Ou talvez ainda antes, em 1921, de acordo com
algumas fontes.
Duas saídas à noite para ouvir música ao vivo
Também há música ao vivo (e cozido à portuguesa aos
domingos) no restaurante Rampa, que fica no 424 da Agostinho Neto, em frente ao
Hospital Central. Ou no Artistas, bar e restaurante localizado na FEIMA – Feira
de Artesanato, Flores e Gastronomia, do lado da Avenida Mao Tse Tung. No
primeiro ouvimos, numa Quinta ao Vivo, Jesse Malunguissa e a sua banda. No
segundo, actuava numa sexta à noite o músico e guitarrista Zoco Dimande, que
estudou jazz numa universidade sul africana e é autor dos álbuns My Heroes e
Let´s Be Together.
Três iftar
O Ramadão, o mês sagrado para os muçulmanos,
decorreu este ano entre 18 de Fevereiro e 19 de Março (ou mais dia menos dia,
uma vez que o calendário lunar pode trazer ajustes de última hora) e eu fui
convidada para três iftar, que é a refeição realizada logo após o pôr do
sol e que quebra o jejum feito durante o dia, ou sawm, o quarto pilar do
Islão. Nessa altura ainda não sabia que este momento de partilha entre
familiares e amigos, mesmo não muçulmanos, foi adicionado em 2023 à lista de
Património Cultural Imaterial da UNESCO. Por ser uma tradição que fortalece a
união comunitária.
Um almoço no Campo di Mare e um jantar no
Zambi
Li algures que o número de restaurantes na
província de Maputo chegou recentemente aos 2107, com a inauguração de Os
Pinheiros, na Matola. Não sei quantos existem só na cidade de Maputo, mas sei
que por lá é sempre bom regressar ao Campo di Mare, o restaurante italiano no
Clube Marítimo de Desportos, na Avenida da Marginal, ou ao Zambi, na Avenida 10
de Novembro, com vista sobre a Baía. No primeiro, troquei desta vez a habitual fritura
mista de peixe e camarões por um tagliatelle com lagosta; no segundo,
apesar do extenso menu (tem sushi, carnes maturadas, opções vegetarianas e
saladas várias, pratos de peixe ou tacos), impossível não matar saudades dos
rabinhos de lagostim ao vapor.
Cinco noites na Ponta do Ouro
No areal da Ponta abundam os vendedores de
pulseiras, de óculos, de “lenho” (água de coco), as massagistas (Márcia, natural
da província de Gaza, faz massagens de uma hora por mil meticais, cerca de 14 euros) ou os
montadores de gazebos, que tanto são úteis para proteger do sol como de uma
chuvada repentina (e desta vez, um encharcado João reforçou o nosso para nos salvar
de uma chuva que decidiu não parar tão cedo). Neste regresso, também por lá
andavam homens e mulheres transportando mudas de plantas locais em direcção ao
Sapphire Sands, o restaurante mais a sul de Moçambique. Explicaram-me que se trata
este de um projecto de substituição das casuarinas nas dunas por plantas mais
capazes de combater a erosão, uma iniciativa que envolverá a ajuda espanhola e
também o Parque Nacional de Maputo. E também por lá andavam os miúdos do Lwandi Surf um projecto dos brasileiros Gabriel e Rómulo que pretende criar um
espaço seguro para jovens em situação de vulnerabilidade social, ou Fénix,
apanhador de mexilhões. Confessa-me este que dormiu feliz na noite anterior,
por o Sporting ter ganho 5-0 com o Bodo/Glimt em jogo da Liga dos Campeões. É
do Sporting desde “noventa e tal”.
Um nascer do sol
Vale sempre a pena acordar cedo em Moçambique. Já
o fiz para ver o nascer do sol no Coral Lodge, ao largo da Ilha de Moçambique, costumo
fazê-lo para ver o amanhecer no bairro dos pescadores, em Maputo. Na Ponta,
acordei agora às cinco e tal, com o pretexto de fotografar os rapazes do Lwandi Surf a apanharem as primeiras ondas do dia.
Uma girafa avistada
Viajar de Maputo para a Ponta do Ouro de carro
inclui uma passagem obrigatória pelo Parque Nacional de Maputo, reconhecido
oficialmente em 2025 como Património Mundial da UNESCO, pelo seu “valor
universal excepcional na conservação da biodiversidade e ecossistemas costeiros
e savanas em Moçambique”. Desta vez, saiu-nos uma girafa ao caminho.
Um casamento na Ponta Mamoli
A noiva, nascida em Moçambique, e o noivo,
nascido em Portugal, conheceram-se ao vivo em Lisboa. Mas, antes disso, fizeram
match no Tinder, como gostam de contar. E escolheram casar na praia, no
condomínio Aloha, localizado à beira mar, em Ponta Mamoli, que é uma espécie de
refúgio para sul africanos em férias e para todos os que tenham coragem de
meter o 4X4 ao caminho. Se o ditado português "Casamento molhado,
casamento abençoado" fizer algum sentido, os agora recém-casados serão
felizes pelo menos durante 100 anos. Já em Moçambique, diz-se que "O
homem come da panela", se o casamento acontecer num dia de chuva, frase
que me dizem dever ser interpretada no sentido literal.
Uma ida à Mozambique Good Trade
Impossível deixar Maputo sem passar pela Mozambique
Good Trade, a loja da Kim Il Sung que vende pacotes de arroz (ou arroz a
granel), farinha de malambe, que é o fruto do embondeiro, mandioca torrada e
ralada, farinha de caju, amendoim pilado, café do Niassa e de Chimanimani ou folha de balacate, em Portugal mais conhecida como erva príncipe. Há ainda por lá produtos de cosmética,
também todos made in Moçambique.
Um encontro com o
músico Tatanka
Já sabia que o
vocalista dos The Black Mamba se encontrava em Moçambique, quando o vi no
aeroporto, na fila para passar as malas no RX. E aí perguntei-lhe como tinha
corrido a estadia, se já estava pronto o hino que fora fazer para a Helpo, uma organização
não governamental para o desenvolvimento que trabalha também com Portugal, Guiné
Bissau e São Tomé e Príncipe e que só em Moçambique construiu, reabilitou e
equipou até agora 144 salas de aula, nas províncias de Nampula e de Cabo
Delgado. Acompanhado de Arlindo Camacho, fotógrafo e realizador, e de Carlos
Almeida, coordenador da Helpo em Moçambique, Tatanka estava feliz com a “residência
itinerante artística e solidária” que os levou a Maputo, Nampula e Ilha de
Moçambique, ao longo de uma semana que soube a pouco. A ideia de fazer “uma
coisa qualquer” em Moçambique era antiga e o facto de Carlos Almeida, há 16
anos no país, ter sido seu professor e treinador de futebol (quando Tatanka “era
puto”) ajudou a que se concretizasse agora. O resultado da viagem, um hino
solidário em quatro línguas (português, changana, macua e chuabo), será
conhecido em breve.
Oito histórias recolhidas
De Sebastião Coana, artista que fez a primeira
exposição aos 15 em Moçambique e que mais tarde estudou e viveu durante dez
anos em Pequim, a Rita Veloso da Rocha, que entrou para a vida religiosa no dia
do seu 23º aniversário, mas que até aí não sabia rezar e muito menos se via a
ser “irmã”, foram oito os retratos de moçambicanos recolhidos. E a eles serão
dedicadas as próximas publicações.
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| Maputo vista da Catembe |
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| Mural de Anísio Macicame, Avenida Armando Tivane, Maputo |
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| Mural de Anísio Macicame, Avenida Armando Tivane, Maputo |
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| Reserva Nacional de Maputo |
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| Ponta do Ouro |
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| Casa Blanca, Ponta do Ouro |
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| Ponta Mamoli |
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| No regresso a Maputo |
A Companhia de Teatro Gungu, localizado na Baixa
de Maputo, na Rua da Travessa do Varietá, realiza sessões geralmente às sextas,
sábados, domingos, feriados e vésperas de feriados às 18h30. Os bilhetes custam
500 meticais e podem ser comprados no site Gungu Online.
Mais informações sobre a peça em cena, eventuais promoções ou horários extra
através do telefone +258 846452701 ou na página no Facebook.
No restaurante e bar Artistas há música ao vivo
às sextas e sábados a partir das 20h, domingos jam session a partir das
18h. Mais informações e reservas podem ser feitas pelo +258 858430255 ou +258
858430255. Mais informações sobre as sessões ao vivo no Rampa na página do Facebook ou pelo e-mail rampa.maputo@gmail.com.
A Mozambique Good Trade, no número 22 da Kim Il
Sung, está aberta de segunda a sexta das 10h às 18h, ao sábado das 9h às 13h.
Mais informações no site ou através do +258 873310200.
Todos podem ajudar a Helpo, organização presidida
durante anos por António Perez Metelo e agora presidida pela cantora
moçambicana Selma Uamusse: através do programa de apadrinhamento de crianças e
jovens ou de projectos, através de donativos de qualquer valor ou através da
consignação de 1 por cento do IRS na hora de declarar os rendimentos (é só
colocar o NIF 507136845 no quadro 11 da declaração, o que não tem nenhum custo
para o contribuinte). Mais informações sobre a Helpo no SITE, através do e-mail
info@helpo.pt ou através do telefone
211537686. Mais informações sobre o projecto Tatanka
Helpa nas crónicas de viagem na RDP África e no programa Bem-vindos da
RTP África (ao minuto 25).
A Casa Blanca acolheu-nos de novo em mais uma estadia na
Ponta. Está disponível no
Airbnb, onde tem 4,76 de classificação (aqui).






















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