De Maputo, com amor

Tenho guardada, entre as folhas de um dos blocos de apontamentos de viagem, uma carta que se apresenta logo no início como uma "carta de amor". Está decorada com vários corações, cheia de frases bonitas e um ou outro elogio exagerado, como eu ser "a pessoa mais bonita do mundo". Foi-me entregue, em mão, à porta da feira de artesanato do Parque dos Continuadores, em Maputo, por alguém que para além do nome completo assina também como "tua admiradora secreta".
E a minha admiradora secreta é uma rapariga de 15 anos, que vende sacos de amendoins a 10 meticais cada (mais ou menos 13 cêntimos de euro) nas ruas da cidade, para ganhar a vida - já que não tem ninguém que a ganhe por ela. Conheci-a noutra estadia em Moçambique, há vários meses, num dia em que almoçava sozinha no italiano Campo di Fiore, no Parque dos Cronistas, e lhe perguntei se podia dividir a minha pizza com ela (em vez de aumentar o stock de amendoins na despensa). Aceitou, agradeceu e esperou por mim no final para voltar a agradecer ("Sabe que se não vendo amendoins há dias em que não como nada?"), dizer-me que tinha sido muito simpática ("Sabe que eles não costumam falar connosco?") e também contar-me que o pai já não está vivo, que a mãe está doente, tem um problema nas pernas (e, acrescenta baixinho, sida). E eu para ali a pensar a quem se referia quando disse "eles" e com um aperto no peito a ficar cada vez maior.
Quando vi que tinha um velhinho Nokia pedi-lhe o contacto e dei-lhe um toque para confirmar o número. Mas nunca lhe consegui ligar (terá esgotado logo nesse dia o saldo quando me telefonou para o número de Portugal, apesar de lhe ter dito que lhe ligava eu). Pelo que o tempo passou e apenas o acaso fez com que a voltasse a encontrar, não no Parquinho (como também é conhecido o Parque dos Cronistas) mas à porta da FEIMA, onde por esses dias se dedicava ao seu pequeno negócio.
Terminava um passeio pela feira (e uma sessão de compras bem negociada), quando ela (mais alta do que eu me lembrava mas com os mesmos olhos doces e o sorriso lindo) se aproximou e me disse um "Olá amiga". Dali até à carta de amor foi o tempo de mais um encontro. Não sei se o último. Se a venda de amendoins continuar a dar pouco dinheiro, diz-me que terá de ir para Gaza, a província ao norte de Maputo, onde gente amiga a acolherá, juntamente com a mãe. Não é fácil ganhar por mês os 2500 meticais que precisa para a renda da casa, mais alguns para se alimentar ("Isso é mais fácil, faço um pouco de arroz") e outros para não desistir da escola.


FEIMA - Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia de Maputo


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