#1 Notas de um regresso a Moçambique – Moçambique já não anima?

Logo no primeiro dia da 23ª ida a Moçambique, já compradas às mamãs da Armando Tivane as primeiras mangas e lichias da temporada e provados os primeiros camarões e caranguejos, ouvi de uma portuguesa há muito no país e que se prepara para regressar a Portugal que "Moçambique já não anima". A viagem foi feita em finais de 2025 e o balanço do ano, que começou com a continuação dos protestos contra os resultados das eleições presidenciais de 9 de Outubro e também contra o assassinato a tiro de Elvino Dias e Paulo Guambe, dois membros da campanha de Venâncio Mondlane, não é de facto animador. Ao longo dos cinco meses de agitação social foram mortas pelo menos 388 pessoas e cerca de 800 foram baleadas (dados da organização não governamental Decide). E foram destruídos estabelecimentos comerciais, escolas, fábricas, armazéns, casas, farmácias, ambulâncias.

Dois mil e vinte e cinco viu também a insurgência alastrar a norte (em Abril e Maio para a província de Niassa, a partir de Novembro para Nampula), tendo sido o ano mais violento, com assassinatos brutais, incêndios e saques em Cabo Delgado, consideram as Nações Unidas e o observatório ACLED - Armed Conflit Location and Event Dataset. Desde Outubro de 2017, quando começaram os conflitos, foram mortas nessa província pelo menos 6341 pessoas e mais de um milhão teve de abandonar as suas casas, sendo que se calcula que cerca de metade dessa população continua ainda deslocada. Entretanto, nos arredores de Maputo, principalmente no município da Matola, o segundo semestre de 2025 ficou marcado por vários homicídios de polícias. Também continuaram os raptos de empresários: terão sido dez em onze meses, reconhecidos pelo Governo.

Ia 2025 a meio, quando o novo Presidente, Daniel Chapo, apelou à independência económica e anunciou o combate à corrupção como prioridade nacional. Fê-lo no agora Estádio da Independência Nacional, antes Estádio da Machava (e ainda antes Estádio Salazar), onde Samora Machel proclamou há 50 anos a independência de Moçambique. E no final do ano, em cartazes colocados por Maputo, na Avenida Julius Nyerere ou na Mao Tse Tung, anunciava "Uma nova era". Mas a "nova era" não começa bem em Moçambique, considerado um dos países mais severamente afectados pelas alterações climáticas globais. As violentas cheias de Janeiro provocaram mortes, desalojados, levaram estradas e pontes, destruíram e danificaram casas, escolas e outros edifícios (o início do ano lectivo foi entretanto adiado para 27 de Fevereiro). O governo calcula que sejam precisos pelo menos 644 milhões de dólares para repor o que foi destruído. Se os estragos da actual temporada de chuvas se ficarem por aqui.

















[Todas as fotos são de Maputo, da vista de Sommerschield e da Igreja da Polana à Praia dos Pescadores]


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