Hortência vai lobolar e casar com Elias

Hortência Armando, 42 anos, três filhos, de 14, 19 e 22, vai casar com Elias ("Elias, como na Bíblia", diz-me a noiva), um pouco mais velho, com 52, "simpático", "não muito alto" e com quatro filhos. Hortência trabalha há 12 no Projecto Esperança – Padrinhos de Portugal, em Marracuene, arredores de Maputo, onde cozinha, com a ajuda da futura sogra e responsável por este match, para cerca de 170 crianças. Depois de duas relações que não deram certo, acha que é desta, com este terceiro noivo, que vai ser feliz. Até porque acredita ter sido abençoada por um "anjo branco": eu própria, obviamente sem asas e vestida com uma blusa e uns calções da cor que me fez ter tão original denominação.
Na última temporada em Moçambique regressei a Marracuene (regresso sempre, para abraçar os afilhados de coração, que o legítimo está na Beira) e soube que Hortência está de casamento marcado. Pelo que decidi passar por lá uns dias mais tarde, para lhe entregar alguns presentes para tão importante evento. O que deixou Hortência verdadeiramente feliz ("Nunca aconteceu isto comigo, as coisas só podem dar certo"). Ficou feliz com o colar que vai usar no dia do casamento e que fez questão de colocar para a fotografia, ficou feliz com a caixa de sombras, de base, de lápis, de batons. Já não vai precisar de alugar (sim, alugar) a maquilhagem para o dia da cerimónia, que era o que tencionava fazer.
O casamento vai acontecer em breve, ainda este mês. E para além da benção religiosa, a cargo da "mãe Olívia", pastora da Assembleia de Deus e coordenadora do Projecto Esperança, vai ter lobolo.  O que significa que Elias vai pagar um dote para casar com Hortência e comprar para a festa umas caixas de cerveja e de refresco, que é como em Moçambique se chama à Coca Cola ou à Fanta. "E isso não é estranho?", pergunto-lhe eu. "Não, vai pagar pouco, vai pagar 10 000 meticais [mais ou menos 138 euros] para comprar a noiva. Não cobramos muito." Hortência diz-me que vai oferecer esse dinheiro à pessoa que a criou, o seu tio Tomás, irmão da mãe já falecida, que por seu lado já lhe comprou uma mala grande para ela guardar as suas coisas. Será nessa mala, que levará para a casa nova, mais longe do local de trabalho ("Vai ser preciso subir chapa"), que vai ficar o vestido branco, de mangas compridas e até aos pés, depois de ser usado.






A ONGD Padrinhos de Portugal foi criada por Catarina Serra Lopes, há 17 anos, para ajudar crianças de famílias carenciadas em Moçambique. Apoia actualmente, numa parceria com o Projecto Esperança, cerca de 342 miúdos (170 nos centros de Marracuene e Pussulane, próximos da capital, 140 no agora destruído bairro da Praia Nova, na cidade da Beira, e 32 no Alto da Manga, também na Beira). E todos podem contribuir para o projecto: apadrinhando uma criança, com contribuições pontuais ou colocando o NIF 507288351 na altura de preencher o IRS no espaço destinado à consignação de 0,5 por cento para instituições de solidariedade social. Mais informações na página da associação no Facebook ou através do e-mail padrinhosdeportugal@gmail.com. 



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