#16 Moçambicanos – Filomena Francisco Cume, Chamanculo, Maputo

Filomena Francisco Cume, fundadora e responsável pela Escolinha Comunitária Mamanas de Chamanculo, nasceu há 57 anos perto de Xai-Xai, na província de Gaza, numa família de oito irmãos. Considera que nos primeiros anos teve uma infância bonita, passada no campo, onde subia às árvores e comia caju fresco acabado de apanhar. Mas também que teve esta um momento triste, que não devia acontecer a nenhuma criança. Numa tentativa de sobrevivência, teve de sair da casa dos pais com sete anos para ir viver com uma família que não a sua, onde trabalhou como "babá". Só com nove anos entrou na escola e nessa altura era boa aluna. Mas quando completou a 6ª classe, teve de sair do povoado onde vivia por aí não haver escola secundária. Acabou por chumbar duas vezes na 7ª, o que a fez perder a vaga. Ao mesmo tempo que estudava, tinha também de trabalhar na casa da família que a tinha acolhido na cidade.

Nessa altura, anos 80, o pai tinha uma casinha no bairro de Chamanculo, em Maputo, e sugeriu que Filomena se mudasse para lá. E Filomena aceitou, tendo começado a aprender, numa estrutura de bairro na Catembe, onde já morava uma irmã, a escrever à máquina. Fazia então guias de marcha que permitiam circular durante a guerra civil. Algum tempo depois teve conhecimento que um grupo de jovens se preparava para deixar Moçambique e ir para a Alemanha e inscreveu-se também. Acabou a trabalhar em Berlim, no bairro de Lichtenberg, numa fábrica de montagem de televisões, depois de ter deixado Moçambique em Maio de 1988. Mas a queda do muro, que aconteceu quando Filomena lá estava  ("Eu estive lá"), interrompeu um contrato que era para ser de quatro anos. Regressou a Moçambique em Outubro de 1990, levando consigo algumas pedras do muro, que acabou por perder nas cheias de 2000. Entretanto, diz que ainda hoje há "tumultos" em Moçambique por causa destas interrupções dos contratos.

Quando regressou a Moçambique, sem trabalho e com os cinco irmãos mais novos a viver consigo (por causa da guerra), fez de tudo para sobreviver: vendia mangas, fazia bolinhos que vendia no mercado de Xipamanine, procurava garrafas para encher de água gelada e vender, vendia "isto", vendia "aquilo". Ainda tentou trabalhar numa fábrica de xiricos (rádios) e televisores, mas o nível académico não era suficiente. Aflita, lembrou-se de uma amiga moçambicana com quem tinha trabalhado em Berlim, cuja mãe era directora de uma creche do Ministério da Educação. E em Março de 1993, já com uma filha bebé, começou a trabalhar como educadora de infância, numa escolinha na Avenida Armando Tivane, criada por Graça Machel quando foi ministra da Educação. Trabalhou lá durante uns dez anos, gostando muito do que fazia, mas sem ter formação, apenas "algumas capacitações". Quando saiu, após ter tido problemas com a gestão, acabou a trabalhar num grande estaleiro de materiais de construção, onde fazia a gestão dos materiais, mas onde era também motorista de camiões, transportando pedra e o que era preciso, depois de ter feito a carta de condução de ligeiros e de pesados.

Uns anos mais tarde, em 2012, Filomena entrou para a Amadha (que significa mãos em changana), uma associação criada para promover o desenvolvimento comunitário do seu bairro de Chamanculo, a quem a VSO - Voluntary Service Overseas, uma agência canadiana para o desenvolvimento, pediu entretanto que lhe apresentasse alguns projectos. E foram apresentados projectos para a produção de tapetes ou para a criação de frangos e também o de Filomena para trabalhar com crianças. Havia de ser este a ter o menor "fundo de cobertura", 11 000 meticais (cerca de 144 euros ao câmbio actual), mas para ela o suficiente para arrancar, para comprar algumas cadeirinhas, algumas panelas para cozinhar. Filomena recomeçou assim a trabalhar com crianças, com a ajuda de alguma comparticipação dos pais para a alimentação, e nunca mais parou. Até porque, pouco depois, a organização não governamental francesa Essor, quis conhecer o seu trabalho. Daí resultou um contrato de seis meses para apetrechamento da escolinha e para formação profissional, que decorria em Boane, por módulos e sempre com acompanhamento. Foi a primeira vez que teve um certificado como Educadora de Infância.

Com a ajuda da Essor, a escolinha começou a ter sustentabilidade. Mas as coisas nem sempre funcionavam quando tinha de pedir material, mesmo que fosse uma cartolina, à associação. Desabafando sobre as dificuldades com Cecília, uma técnica francesa que andava pelo bairro, ouviu um "Tu és capaz de fazer alguma coisa sozinha. Não estás a conseguir por causa dessas barreiras". Foi então que decidiu arranjar um espaço (encontrou-o num antigo armazém onde embalavam sal e açúcar), que equipou com algumas mesas que comprou e com os brinquedos dos filhos. E as crianças foram aparecendo. Quando os donos do armazém o quiseram de volta, Filomena instalou ainda a escolinha na sua própria casa e mais tarde noutro espaço que se revelou pequeno. Até que em 2017 conheceu o local actual e tratou de o legalizar junto da Acção Social.

A Escolinha Comunitária  Mamanas de Chamanculo, frequentada em 2025 por 75 crianças, das quais 34 "graduaram", tendo passado para a 1ª classe, está aberta das 6h30 às 17h, prolongando-se quando é necessário para a casa de Filomena, ali perto. Tudo para satisfazer as necessidades dos encarregados de educação, a maioria mães solteiras ("É raro aparecer um pai"), muitas delas empregadas domésticas ou vendedoras informais, de amendoim ou de fruta da época. Frequentar a creche custa por criança 2500 meticais por mês (cerca de 34 euros), pagamento que permite fornecer três refeições por dia, "mata bicho", almoço e lanche, e também pagar um subsídio mensal entre 5000 a 7000 meticais (cerca de 65 a 92 euros) a seis educadoras (duas para cada grupo, dos 3, 4 e 5 anos), uma cozinheira, um guarda e à própria Filomena. Acresce a este orçamento a ajuda de alguns bons pais: alguns viajam para Inhambane e na volta oferecem um saco de coco, outros apoiam com um saquinho de cebolas. 

Filomena, que quando foi "babá" aos sete e oito anos recebeu no final de cada ano uma manta como pagamento (a primeira serviu para cobrir os irmãos e isso marcou-a) sente-se agora orgulhosa do trabalho feito: "O meu trabalho é a minha criação, a minha conquista". E também feliz com as suas decisões pessoais. Tendo visto a mãe sofrer para alimentar os filhos, Filomena, que é a terceira dos oito, teve dois filhos por opção, o primeiro com 24 anos e o segundo seis anos depois, um intervalo planeado. A filha tem agora 33, o filho 27 e são os dois licenciados, ela em Gestão de Negócios, ele em Gestão Empresarial. Entretanto, o pai dos seus filhos (foi na sua companhia que emigrou para a Alemanha) tem "por aí uns dez filhos" com outras mulheres. De todos, só o de Filomena seguiram para o ensino superior, mas não com a ajuda do pai. Separaram-se amigavelmente, por ele ser  "uma pedra no sapato" para o caminho dos filhos. 

Para o futuro, Filomena diz que não vai parar, que irá responder às necessidades das crianças onde puder. No bairro de Chamanculo, onde o consumo de álcool é um assunto sério e onde considera que faz falta o espirito de conservação (com a ajuda do projecto Regenera foram construídos parques infantis entretanto destruídos), criará este ano uma biblioteca comunitária, num sítio que alugou e onde terão lugar aulas de reforço para as crianças que saírem da creche para o ensino primário. Diz que tem a certeza que irá dar certo. Na terra onde nasceu, adquiriu um espaço, a uns quatro ou cinco quilómetros acima de Chongoene, mesmo à beira da Nacional 1, onde já colocou estacas e barrotes, comprados com algumas poupanças que a escolinha permitiu fazer ("Tirava pouco, pouco, pouco"). Aí pretende construir um local onde as crianças possam ocupar bem o seu tempo. Estas vão continuar a subir às árvores, mas podem subir com um propósito: podem ter de trazer com elas cinco folhas ou cinco galhos secos. Para Marracuene, onde tem um terreno, Filomena tem um sonho: criar um dia uma espécie de "politécnico infantil", onde tudo seja feito à medida das crianças, mesmo o sítio destinado a lavar os pratos que se utilizam no dia a dia. E entretanto, o seu filho, que herdou da mãe o "bichinho da infância", prepara-se para abrir em Chamanculo B também uma escolinha comunitária.





Retrato feito a partir de uma conversa realizada no bairro de Chamanculo C, arredores de Maputo, a  25 de Novembro de 2025. É o décimo sexto de uma série sobre moçambicanos a ser publicada aqui no blogue.


Entre 1979 e 1989, ano da queda do muro de Berlim, emigraram para a antiga RDA - República Democrática Alemã cerca de 21 000 trabalhadores moçambicanos, que haviam de ficar conhecidos como madjermanes. Durante muitos anos manifestaram-se às quartas feiras no Jardim 28 de Maio, ou Jardim dos Madjermanes, por direitos que consideram não ter sido cumpridos. E mais de 30 anos depois do regresso a Moçambique, continuam ainda a manifestar-se (ou os seus filhos), embora as manifestações tendam a perder força. Mais sobre o assunto aquiaqui ou aqui.


Retratos da série Moçambicanos:






Bruno Massada Chimuwaza, Maputo (Licenciado em Ensino de Matemática)

Sérgio Cândido Veiga, Maputo (Pintor, escritor, pescador, marinheiro, caçador)

Filipe José Couto (Padre Couto), Maputo (Ex-pároco, ex-reitor das universidades Católica e Eduardo Mondlane, Professor)

Francisco Luís Vinho, Khongolote, Maputo (Skatista, fundador do Projecto Skate e Educação, licenciado em Informática)

Mário Gomes, Maputo (Empresário, aventureiro)


Meque Gonçalo, Lhanguene, Maputo (Estudante de Antropologia)

Gilberto Mendes, Teatro Gungu, Maputo (Actor, encenador, fundador do Teatro Gungu, desportista, ex-secretário de Estado do Desporto)

Carlos Serra, Casa de Vidro, Macaneta (Professor universitário, formador, activista ambiental)

Rosílio Ernesto Cuna, Maputo (Vendedor de roupas e capulanas)

Filomena Francisco Cume (Fundadora e responsável pela Escolinha Comunitária Mamanas de Chamanculo)



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