#19 Moçambicanos – Luís Sozinho, Maputo
Nascido em Nacala Porto, na província de Nampula, há 38 anos, Luís Sozinho considera que teve uma infância igual a qualquer criança da zona onde cresceu. É filho de uma família islâmica e no islamismo existe "aquela coisa toda" em relação à representação das imagens, principalmente de pessoas. Mas mesmo com essa restrição teve o apoio da mãe, uma muçulmana devota, quando com cinco ou seis anos, ainda nem tinha ido para a escola, começou a ter uma inclinação para o desenho. Como as condições precárias em que viviam nem sempre permitiam que tivesse papel ou um caderno, o chão e as paredes das ruínas surgiam então como recursos alternativos. Lembra-se de a mãe, que perdeu a vida em 2017, depois de com o seu amor o ter salvo ("como filho e como cidadão"), se preocupar em lhe arranjar qualquer suporte que pudesse acolher a sua vontade em desenhar.
Quando entrou para a escola, que via como "um lugar de felicidade" e não como uma obrigação, continuou a desenhar e tornou-se "muito bom no exercício da caligrafia". E assim foi crescendo, sempre uma criança fechada, que ficava sozinha no seu canto. Os pais separaram-se pouco tempo depois de Luís nascer, teria um mês, nunca soube o motivo. Viveu com a mãe até aos 18, 19 anos e houve uma altura em que chegou a ter o sonho de viver com o pai, de quem gostava muito. Este, que era natural de Angoche e "muito romântico" (tinha quatro filhos de uma relação, quatro de outra e mais quatro de quatro relações diferentes, grupo de que Luís faz parte), ia fazendo algumas visitas.
Frequentou o ensino primário e secundário em Nacala Porto, onde teve dois tipos de educação e contacto com dois mundos. Na 6ª e na 7ª classes andou numa escola islâmica, a African Muslim Agency, onde aprendeu árabe, história da religião islâmica e também moral islâmica. Mais tarde, entre a 8ª e a 12ª, frequentou a Escola Secundária Santa Maria, uma escola católica onde teve uma disciplina de Ética Moral, que não havia no ensino público, e onde conheceu São Tomás de Aquino ou São Francisco de Assis. As duas eram escolas privadas, mas pode frequentá-las com o apoio dos tios, que consideravam Luís uma criança inteligente e achavam que destas escolas os alunos sairiam "a saber". Nas outras brincava-se muito.
Paralelamente aos estudos, Luís continuou a desenhar e a pintar e nos eventos da escola tinha sempre alguma coisa para apresentar. Um dia, na 10ª classe, fez um leilão dos seus trabalhos, tendo alguns encarregados de educação e até o presidente do Município adquirido algumas peças. Com esse dinheiro, acrescido de outros valores entretanto poupados, construiu uma casa para a mãe, "uma palhota com aqueles tijolos de Nampula" e coberta com chapas de zinco. A mãe vivia até então numa casinha precária, que tinha sido da mãe dela, onde tinham de ficar num canto quando chovia. Dar-lhe a casa foi um alivio para si e uma felicidade para a mãe.
Terminada a 12ª classe, concorreu para duas universidades: a Unilúrio, em Nampula, para o curso de Arquitectura e Planeamento Físico, e o Instituto Superior de Artes e Cultura, em Maputo, para fazer o curso de Artes Visuais. E quando saíram os resultados percebeu que podia entrar em qualquer uma. Ainda andou um mês em Arquitectura, onde tinha uma proposta de bolsa de uma pessoa singular, a Irmã Maria. Mas entretanto recebeu a confirmação de que o Estado lhe daria uma bolsa completa, com alojamento incluído, para fazer Artes Visuais, pelo que agradeceu à que considera ser a sua primeira mecenas (ajudou-o na compra de materiais, deu-lhe incentivo moral e aconselhamento) e rumou a Maputo.
Aí, onde estava pela primeira vez, ficou seis meses sem sair da residência do Instituto, localizada na Avenida das Indústrias, na Matola. Aproveitou esse período para estudar, para se ambientar, para estar consigo mesmo, enquanto todos os colegas de outras províncias queriam era ir conhecer a cidade. Depois dos seis meses, começou a sair, mas seguindo uma metodologia própria: apanhava, sozinho, numa paragem perto da escola, o primeiro chapa que aparecesse e seguia viagem até ao terminal. Foi assim que conheceu Boane, o bairro Patrice Lumumba ou Xipamanine. Quando saiu da residência e começou a viver em Maputo, jogava um pau ao ar e quando caia no chão seguia a direcção que ele lhe indicava. Caminhava, muitas vezes a ouvir música, ou apanhava um transporte. Também passou a sair com professores e colegas, para fazerem juntos alguns projectos, como a pintura de murais.
Fez o curso de Artes Visuais em três anos (agora são quatro), o que considera ter sido uma experiência intensiva, mas bonita. Nunca se arrependeu de ter deixado Arquitectura para trás, onde teria de lidar com disciplinas como Matemática ou Física. Considera que a pressão nas Artes Visuais era diferente, era menor: "Era tudo uma festa. A dor não é a mesma." Durante o curso teve professores portugueses, cubanos vindos da Rússia, espanhóis, franceses e moçambicanos que tinham estudado fora, o que lhe permitiu ter contacto com modelos de educação diferentes. Foi ouvindo muitas alternativas de trabalho, conhecendo muitas formas de tratar o material.
Em 2014, quando terminou a licenciatura, não o deixaram regressar a Nacala, tendo começado a dar aulas no ano seguinte, passando por cadeiras como Geometria Descritiva, Projecto, Atelier de Pintura, História da Arte e Direcção de Arte para Cinema. E dá aulas até hoje. Com a formação concluída parou para pensar: "Como vou trabalhar? O que vou fazer para me considerar um artista?". A dada altura ficou um ano inteiro sem pegar no pincel, para não se acomodar ao estilo com que vinha trabalhando, o que considera ter sido uma "espécie de lavagem". Mas continuou a desenhar, a ouvir, a observar, a ler.
Partindo das suas referências, como o moçambicano Gemuce, o britânico Francis Bacon, o italiano Caravaggio, o cubano Ulisses Oviedo, seu professor, e alguns impressionistas, a questão que se lhe ponha era como trabalhar sem lembrar nenhum deles. Esse foi o desafio, um "desafio conflituoso". Como se encontrar? Luís decidiu então associar à sua pintura as suas outras paixões, uma vinda da infância: o circo (lembra-se de um circo ambulante que passava por Nacala ou do programa televisivo Perlimpimpim, que tinha acrobacias e palhaços), a dança tufo, a dança de corda ou o mussiro com que algumas mulheres moçambicanas cobrem a cara. Juntou ainda a paisagem urbana de Nampula e de Nacala Porto e elementos do Catolicismo e do Islamismo (como as vestes dos cardiais ou a figura do Papa) e encontrou a "receita" para a sua pintura. Considera que escolheu este vocabulário para dizer tudo o que quer dizer: o que o incomoda, o que o alegra.
Em 2020 fez a sua primeira exposição, Circenses, na galeria Arte de Gema, localizada no Centro Comercial Marés e que pertence ao pintor Gemuce. Considerava-se na altura muito novo como artista mas decidiu arriscar. E acha que correu muito bem. Em Dezembro de 2025 fez a segunda, Prosaico, na Galeria do Porto de Maputo, uma espécie de discurso provocativo onde fala das preocupações sociais, económicas, políticas. Fala do "feio" que se está a viver mas "não o entrega de uma forma feia". Prefere incorporar beleza, sendo que considera que as coisas mais belas de moçambique são as pessoas, o "povo simples" e a sua força de reinvenção no dia a dia. Na rua, gosta de ouvir gargalhadas das senhoras que estão a vender, e acha que isso é bonito. Mas é aquela beleza que dói, quando se pensa de forma profunda.
Luís Sozinho, que em 2007 ou 2008, numa aula de língua portuguesa, ouviu um professor dizer-lhe que um dia seria poeta ("Foi um encorajamento"), tem muita coisa escrita, de poesia, mas ainda não publicou. Tem projectos como Monólogo, um conjunto de preocupações, memórias, experiências, reflexões, que foi juntando ao longo do tempo, e que considera não ter muito da poesia que vê nos outros, não tem "muita flor". Ou Semântica a um Amor, que é sobre o amor visto de uma forma crítica. Tem também uma ideia de juntar os dois, o que seria uma mistura de poesia e de outras coisas. Se for para publicar, acha que irá imprimir em forma de livro para os amigos e para ficar para si, não fazendo cerimónia de lançamento, por não se considerar escritor, mas artista plástico. E se alguém achar que vale a pena pode replicar e publicar, ele diz que se "desresponsabiliza". Acha que "talvez seja cobardia". ou "talvez exigência", pela relação que tem com a literatura. Entretanto, vai continuar a escrever (sempre no silêncio) e a pintar (quase sempre a ouvir música ou a ouvir filmes que já viu e de que gostou), sendo que não sabe como vai ser no futuro. Sente que não fará nenhuma mudança brusca.
Retrato feito a partir de uma conversa realizada na Galeria do Porto de Maputo no dia 3 de Dezembro de 2025. É o décimo nono de uma série sobre moçambicanos a ser publicada aqui no blogue.




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