#17 Moçambicanos – César Tito Gremo Nota, Maputo

Militar e licenciado em Antropologia, César Tito Gremo Nota nasceu há 29 anos em Machipanda, localidade de Manica, província moçambicana que faz fronteira com o Zimbabué. Nasceu numa família humilde, que trabalhava para sobreviver ("Viver é outra coisa"). Os pais uniram-se quando já tinham filhos de relações anteriores: o pai duas filhas, a mãe quatro (e a mais velha, "a primeira sorte", tinha entretanto falecido). Juntos tiveram mais quatro. Nos primeiros tempos de vida de César, o pai era guarda-fios nos CFM - Caminhos de Ferro de Moçambique, o homem das comunicações. Até que perdeu o emprego, por o sector em que trabalhava ter sido extinto. Com a indemnização recebida decidiu comprar uma casa também em Manica, mas menos remota do que a de Machipanda, onde a família se instalou. César tinha então uns oito anos e estava na 2ª classe. E aí começou uma fase menos boa na sua vida: o pai começou a beber cada vez mais e quando bebia muito levava algumas coisas de casa para vender ou para trocar por bebida, como o óleo que era necessário para cozinhar. Depois de todo o dinheiro da indemnização ter acabado, pôs-se a questão de como sustentar a família. O pai passou a ser camponês, tendo começado a cultivar uma machamba e também a vender lenha, fruta e a fazer pequenos negócios. Toda a família tinha de ajudar.

O pai de César era um senhor muito calmo, mesmo quando bebia, frequentava a igreja ("Tinha uma forte componente religiosa") e tinha estudado até à 4ª classe. E uma das coisas boas que tinha foi que sempre incentivou os filhos a estudar, a "abraçar a escola com as duas mãos". Na família, era obrigatório ir à escola. Mas nos tempos livres as crianças procuravam ajudar com o que podiam: ajudavam na horta ao fim de semana ou partiam, de lixo em lixo, em busca de latas de bebida ou garrafinhas para vender no mercado e conseguirem algum valor que desse para comprar um copo de arroz.  Até que por volta dos 13 ou 14 anos, por influência de amigos, César começou "a frequentar" as minas de ouro que existem na província. Na altura, ninguém controlava o garimpo ilegal e nem César sabia que era ilegal.  Trabalhava então na "fenda", de onde saía muito ouro, numa zona recôndita, mais montanhosa. Havia crianças que até abandonavam os estudos para irem para as minas. César, que algumas vezes ia com os pais, a quem ensinava o processo, continuou sempre a estudar, não se perdeu.

As crianças não entravam nas minas, nos buracos de uns 10 ou 15 metros de onde era extraído o ouro. O seu trabalho, mesmo assim pesado e sujo, era carregar a areia tirada pelos mais velhos para as zonas onde esta seria lavada. E aí podiam receber algum dinheiro pelo carregamento ou optar por aprender a lavar a areia. César foi trabalhando no garimpo até andar na 10ª classe, com uns 16 anos, e depois foi deixando aos poucos o trabalho duro e começou a fazer biscates, qualquer coisa que lhe pedissem, como a abertura de fossas ou sachar uma machamba. O rendimento servia para comprar alguma roupa, o uniforme escolar, os cadernos, os livros, pagar os 10 meticais necessários para o bilhete do chapa (cerca de 13 cêntimos de euro) que o levaria à escola. Mas muitas vezes acordava cedo e fazia a pé o caminho de uns 4 ou 5 quilómetros.

Quando terminou a 10ª classe, enfrentou um novo desafio, pois no distrito de Manica só havia uma escola com a 11ª e a 12ª e não conseguiu aí ter vaga, pelo menos à primeira tentativa. Teve de regressar a Machipanda, onde por sorte morava o irmão mais velho, já casado, e o irmão mais novo ("A última sorte"). Mas depois de três meses de convivência decide voltar a casa dos pais e com a ajuda do director da escola local, pai de um colega a quem o pai de César tinha ajudado em tempos numa questão de saúde (um médico tradicional terá resolvido as "crises" que o rapaz costumava ter), consegue a vaga que antes não existia. E entretanto continua sempre a fazer biscates e a poupar o que podia numa caixinha.

Concluída a 12ª, com 19 anos, não sabia o que fazer. A não ser que queria continuar a estudar, mas não sabia como. Acabou por aceitou a proposta de um tio para vender sapatos em segunda mão no Zimbabué, comprados nas "calamidades". César não tinha passaporte e passava "furando" a fronteira, de forma ilegal. Viajava de Manica para Machipanda de chapa e de Machipanda até ao Zimbabué a pé, pela mata, andando talvez uns 15 quilómetros, por zonas onde havia placas a avisar sobre a existência de minas. Acabou por desistir desta vida perigosa pouco tempo depois. Em casa, os pais produziam muito milho na altura e tinham mais algum rendimento.

Em 2015 César quis tentar a sorte e começou a morar com a irmã mais velha, que é policia, em Chimoio (entretanto, todos os irmãos concluíram a 12ª classe). Aí, concorreu para o Instituto de Formação de Professores de Chibata, mas "Admitido, sem vaga" foi o resultado. Lembra-se do dia em que pensou "que é perigoso ser pobre". Caminhou, triste, uns 20 ou 25 quilómetros para regressar a casa depois de ver os resultados, por não ter 20 meticais para o transporte (o dinheiro só tinha dado para a ida). Ainda por cima com a frustração de não ter conseguido. Voltou novamente a casa, em Manica, onde criou uma escolinha de explicações, na qual as crianças pagavam 200 meticais por mês (cerca de 2,50 euros ao câmbio actual), dinheiro que era pouco mas que ia guardando.

Quando começaram as inscrições para a vida militar, César tentou entrar, por desespero e por falta de opções, apesar de o pai lhe dizer que não devia ser esse o caminho. Mas o seu nome voltou a não sair nos resultados. Mesmo assim, compareceu na inspecção médica, onde conseguiu a cédula militar. Começou a tratar do processo de forma "clandestina", sem a família saber, contactando alguém que lhe tinham dito que o podia encaixar na lista. A 23 de Setembro de 2015, agarrou na mochila e partiu para o Centro de Recrutamento de Chimoio, para fazer reinspecção médica, dizendo aos pais que ia por uns dias para casa da irmã. A 28, um dia muito importante para César, com o nome desta vez aprovado para ingressar na vida militar, partiu de Manica sem saber previamente o destino, depois de ter recebido 300 meticais para a viagem (que gastou mal, acabando com fome e a mastigar papel e a chupar Colgate para enganar o estômago). Quando o transporte em que seguiam desviou, no cruzamento do Inchope, para a capital, os 83 mancebos começaram a gritar "Vamos para Maputo, vamos para Maputo". Acabaram por rumar à Escola Prática do Exército de Munguine, na Manhiça, onde entraram numa mata fechada, era cerca de meia noite, altura em que o medo tomou conta do carro. 

A vida no quartel não era fácil. Ficou sem telemóvel, como todos os outros, mas antes conseguiu ainda avisar os pais sobre onde se encontrava, tendo deixado a mãe a chorar. Nos primeiros dias apanhou febre, malária e também o "espírito do arrependimento". Achou que estava perdido. Foram seis meses de formação muito duros, com muito "chamboco" (chicotadas) pelo meio. Como recruta, ganhava 830 meticais por mês (cerca de 11 euros) como subsidio de formação e passou a enviar parte aos pais quando lhe devolveram o telefone. Em Fevereiro de 2016 terminou o curso ("Foi uma honra") e, como soldado, teve a sorte de ter ficado, na área da segurança, na escola onde fez formação. Passou a ganhar 2100 meticais (cerca de 30 euros) e conseguiu entretanto ir a casa, onde apareceu "aprumado". O pai, nessa altura doente, recebeu-o com um olhar de orgulho.

De regresso à Manhiça e à vida militar, continuava com vontade de ter mais formação, tentando perceber  quais seriam os critérios para poder continuar a estudar. Começou a falar com alguns chefes e foi pensando numa candidatura à UP - Universidade Pedagógica. Acabou por fazer o exame de admissão em Manica, depois de muito estudo, tendo tido 16 a Português e 18 a História. Não lhe interessava qual seria o curso, embora tivesse alguma vontade de fazer francês. Nessa altura, achava que tinha de "pensar grande", que ser pobre não tinha de significar pensar de forma limitada. Viu Antropologia no edital da UP, nem sabia o que era, mas pesquisou de forma superficial e foi essa a opção. Quando soube que tinha entrada pulou de alegria. Tratou de entregar a arma e de falar com o seu comandante, que não tinha autoridade para o dispensar formalmente mas que lhe disse para ir estudar. Saiu do quartel às três da manhã, com algumas poupanças que deram para pagar a inscrição. Nunca tinha estado em Maputo.

Na cidade alugou um quarto por 1300 meticais (cerca de 17 euros), comprou um fogão de uma boca, duas panelinhas, o básico para sobreviver. E precisava de pagar a propina, que custava 1820 por semestre (24 euros). Considera por isso que fez a formação numa "situação de batalha", mesmo com a ajuda em comida (óleo, farinha, frango) que conseguiu através do comandante da logística do quartel, admirado pela sua determinação. Ainda durante o curso começou a ajudar outros estudantes, mediante algum pagamento, a fazer trabalhos académicos, a orientar projectos, monografias. Um trabalho de consultoria académica, sobretudo nas áreas de letras e sociais, que continua a fazer, tendo já orientado cerca de 100 estudantes de diversas universidades. Apaixonado pela escrita académica, acha que fornece as peças chave para orientar, sabendo que  "fazer [o trabalho pelo outro] é crime". 

Num futuro próximo, César, agora em situação de licença no exército (onde o salário como licenciado subiu para 37 000 meticais, um pouco menos de 500 euros), pretende ainda continuar a estudar. Depois de ter ajudado um irmão e de ter feito obras em casa da mãe (o pai morreu em 2020), vai investir num mestrado. Gostava de fazer um relacionado com saúde pública no ISCTEM, mas é caro. Talvez um na UP. Mas o sonho mesmo é estudar em Inglaterra, talvez na área de gestão de projectos ou de gestão educacional. Ou em Portugal. Actualmente frequenta um curso de inglês, não lhe vá calhar em sorte receber uma bolsa da Commonwealth. E entretanto, César, que considera ter vindo de uma vida de sofrimento, mas com algumas coisas boas, com a união que sempre sentiu na família, gostava também de se dedicar a projectos sociais. Acha que é triste ver os outros sofrer, que é triste ver uma criança na lixeira.







Retrato feito a partir de uma conversa realizada na FEIMA, em Maputo no dia 26 de Novembro de 2025. É o décimo sétimo de uma série sobre moçambicanos a ser publicada aqui no blogue.



Retratos da série Moçambicanos:






Bruno Massada Chimuwaza, Maputo (Licenciado em Ensino de Matemática)

Sérgio Cândido Veiga, Maputo (Pintor, escritor, pescador, marinheiro, caçador)

Filipe José Couto (Padre Couto), Maputo (Ex-pároco, ex-reitor das universidades Católica e Eduardo Mondlane, Professor)

Francisco Luís Vinho, Khongolote, Maputo (Skatista, fundador do Projecto Skate e Educação, licenciado em Informática)

Mário Gomes, Maputo (Empresário, aventureiro)


Meque Gonçalo, Lhanguene, Maputo (Estudante de Antropologia)

Gilberto Mendes, Teatro Gungu, Maputo (Actor, encenador, fundador do Teatro Gungu, desportista, ex-secretário de Estado do Desporto)

Carlos Serra, Casa de Vidro, Macaneta (Professor universitário, formador, activista ambiental)

Rosílio Ernesto Cuna, Maputo (Vendedor de roupas e capulanas)

Filomena Francisco Cume (Fundadora e responsável pela Escolinha Comunitária Mamanas de Chamanculo)

                                            

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