#18 Moçambicanos – Joana Vasconcelos, Maputo
Capoeirista há 25 anos e "a mulher mais graduada do continente africano", Joana Vasconcelos nasceu no Brasil há 44 e está há 42 em Moçambique, para onde foi com a família e onde decidiu ficar (o pai, o realizador Chico Carneiro, tinha na altura um projecto de documentário no país). Fez a a faculdade na Amazónia, onde estudou Turismo e Cultura, e foi lá que conheceu a capoeira, como hobby, como desporto. Aprendeu numa academia, com um mestre que morava num bairro periférico, com muitos traficantes. E que um dia lhe disse: "Se você quer aprender capoeira de verdade vem para o bairro". E Joana foi, aos fins de semana, tendo aí descoberto um mundo novo: um colega era ex-presidiário, outro com 14 anos já tinha um filho. Entretanto, o mestre fazia um trabalho humanitário sem perceber que o fazia.
Quando regressou "a casa", a Moçambique, em 2006, começou a dar aulas de capoeira dois dias depois. Mas como uma coisa que achava muito secundária. Mal sabia que a capoeira já tinha decidido que seria a sua vida. Nessa altura dava aulas à noite e ia a um orfanato aos fins de semana, de forma voluntária. Quando engravidou do primeiro filho, decidiu deixar o trabalho que fazia e dedicar-se mais às aulas. Mas continuou a pensar que isso não era a sua carreira. Durante os dez anos seguintes havia ainda de trabalhar na área da segurança no trabalho e dos primeiros socorros, como consultora, fazendo formação, especializações e a viajar muito para as províncias. Mas continuando sempre a dar aulas, por vezes "na praça", quando estava fora de Maputo. Uma vez, em Tete, há uns 15 anos, enquanto corria, foi abordada por um rapaz ("Capoeirista?") que lhe disse que nesse dia à noite haveria treino. Foi lá ver e esses capoeiristas estão consigo até hoje.
Em 2015, morou um ano em Milão, "por conta do marido", com quem está há 15 anos e que de vez em quando fica louco com tanta capoeira ("Já se habituou"). Até então, em Moçambique, tinha sempre achado melhor apresentar-se como consultora, como alguém que tinha um trabalho sério, do que como capoeirista. Se o fizesse, as pessoas perguntariam "Mas tu não trabalhas?". Nesse tempo em Itália, começou a viajar pela Europa, para França, para a Suécia, e a perceber que ser professora de capoeira em Moçambique despertava mais curiosidade e interesse do que ser consultora. E isso começou a mudar a sua forma de pensar. Afinal, ali o que fazia era valorizado, podia falar com orgulho. Um dia, estava num evento com muita gente e sentiu essa transformação. Todos ali faziam mil perguntas sobre os alunos, os projectos sociais, sobre como fazia com a questão da pobreza.
De regresso a Moçambique, "super empoderada" e "gravidíssima" da sua filha, que tem agora nove anos, decidiu fechar a empresa, vender as macas e os bonecos de primeiros socorros, e montar o seu próprio local para dar aulas, o que fez no quintal da sua casa, num espaço a que chama "barracão". E achando que a capoeira, até há pouco tempo muito discriminada pela sociedade e conotada como uma coisa de marginais, de pessoas bagunceiras, é uma das maiores ferramentas de arte e de educação, decidiu também trabalhar com lugares mais distantes da capital, onde a população não tivesse acesso a nada. Namaacha, uma comunidade muito rural, a cerca de 80 quilómetros de Maputo, com crianças que chegavam de longe, a pé, foi a primeira escolha.
Tinha a filha uns seis meses, quando Joana acordou num sábado às cinco da manhã, com uma daquelas chuvas de Moçambique. E era dia de ir dar uma aula precisamente à Naamacha. O marido acordou entretanto e disse-lhe para não ir, que não iria ter nenhum aluno. Como não tinha como os avisar de que não iria (e alguns caminhavam uma ou duas horas para ter a aula) decidiu ir. Quando chegou não havia ninguém, mas depois viu aparecer um miúdo embrulhado numa rede mosquiteira. Os outros, uns 50, encharcados, estavam abrigados. Joana deu a aula e no regresso a Maputo chorou enquanto conduzia. Aprendeu a lição: se combinas que vais tens mesmo de ir, não se abandonam projectos. Uma vez num orfanato, num sábado em que não conseguiu ir, os miúdos ficaram no portão até escurecer, à espera de ver o seu carro. Actualmente, com os telemóveis e com os instrutores que entretanto formou e que a podem substituir em algum imprevisto, já não há falhas.
Joana, que acha que nos últimos dez anos se transformou "numa outra pessoa", com tudo o que faz com a capoeira, tem agora, perto da capital sete projectos sociais: na Ponta do Ouro, em Impaputo, que fica no cruzamento para Goba, ou em Matendene, perto do Zimpeto. Aí, há aulas pro-bono durante a semana, com instrutores que começaram consigo com uns 14 anos, nos trabalhos comunitários, e que agora recebem um salário para trabalhar com a organização, que as parcerias permitem pagar (a Fraternidade sem Fronteiras foi o primeiro grande apoio, que permitiu a compra de uniformes, a Embaixada da Irlanda o segundo, quando se começou a trabalhar só com meninas). Joana dedica a estes projectos os fins de semana alternadamente, tentando ter um livre em casa mês.
Mais a norte, em sete distritos das províncias da Zambézia e de Nampula, Joana trabalha, através do Capoeira para o Futuro, um programa "incrível", "super lindo", que entretanto criou, com cerca de 1500 meninas resgatadas de uniões prematuras, em conjunto com a UNICEF, no âmbito do End Child Marriage - Programa Global pela Prevenção e Eliminação das Uniões Prematuras em Moçambique, e outros parceiros. Porque considera que é preciso ser criança na idade de ser criança e também que com a capoeira se pode recuperar a auto estima e promover a integração e o desenvolvimento físico e mental. Durante uma hora as meninas cantam, tocam instrumentos, fazem desafios psicomotores. Algumas dizem que com a capoeira "sentem uma coisa boa no coração", outras que estão a dormir bem, outras que estão a ficar mais fortes, que já conseguem carregar a água sem ficarem tão cansadas. Na Zambézia, num grupo de 40, 22 têm filhos. Então, fizeram um esquema em que metade treina e a outra metade cuida dos bebés e depois trocam.
O trabalho de Joana também já passou por Cabo Delgado, quando foi chamada pela Força de Emergência das Nações Unidas para ir aos acampamentos de refugiados. Nessa altura ficou em Moeda por três meses e depois disso regressou várias vezes. Passava os dias a recolher dados, com o apoio de uma equipa, para analisar os traumas da guerra, e outros instrutores davam as aulas. Fez um piloto de estudo para ver qual seria a melhor opção de trabalho: fez um grupo só de meninas, um só de rapazes e um outro misto. Na Ilha de Moçambique, Joana e a sua equipa trabalharam durante oito meses, dentro da Fortaleza de São Sebastião, com o apoio da Embaixada da Austrália. E ainda mais quatro com verbas próprias, para cerca de 120 participantes. Actualmente continua a praticar-se capoeira na Ilha, com um grupo mais pequeno, cerca de 25 participantes, uma vez que vão surgindo na comunidade os líderes naturais. Uma vez por ano, viaja até lá fazer a graduação dos alunos, de passagem de nível. Na capoeira, só no nível de adulto há 15, sendo a última corda a preta, que "só se pega com mais de 40 anos".
Em 2021, Joana, que sempre leu muito mas que achava não poder ser escritora ("O escritor é um ser bem acima da gente"), lançou o primeiro livro de uma colecção infanto-juvenil que terá oito (vai no terceiro), cuja personagem é uma menina africana chamada Kioni. Joana queria introduzir literatura, uma parte educativa nas aulas mas não encontrava nada. Quando o marido lhe disse que o que queria estava apenas na sua cabeça, decidiu fazer uma especialização em história de África e da Diáspora Atlântica, para ter muito conhecimento sobre o que queria falar, e outra em Arte, Cultura e Educação. E isso foi-lhe dando confiança. Começou a escrever e a pandemia ajudou, pois conseguiu ficar em casa com tempo.
Considera que o primeiro livro, Kioni, A Pequena Mandingueira - A Lenda do Berimbau, foi um ponto de mudança. Em menos de um mês teve uma grande visibilidade mundial. Talvez porque a capoeira, que é um desporto de grupo, que não tem um ganhador nem um perdedor e que não separa por idades ou por género, está em mais de 150 países, onde é praticada em português. Se um alemão for instrutor de capoeira, ele tem de saber falar português. Se se chegar ao Japão, o instrutor cantará em português: "Sem a música não tem como fazer a roda". Por isso, considera que a capoeira é a maior divulgadora da língua portuguesa no mundo. Para além de proporcionar ganhos incríveis, como a libertação de traumas ou permitir voltar a confiar no próximo. Joana conta que há meninas que quando chegam ao projecto mal conseguem dizer o seu nome. Dali a dois meses estão a tocar berimbau e a cantar com a voz saindo como se cantar fosse a última coisa que tivessem que fazer na vida. Acresce que as letras das músicas podem ser adaptadas para um propósito: "Quem é você que vem de lá, sou capoeira, vou-me apresentar" ou "Minha viola chorou, deixa a viola chorar, deixa dizer o que sente".
Orgulhosa com o trabalho feito, Joana, que tem ainda três novelas gráficas para um público jovem adulto, com previsão de lançamento em 2026, acha que ter-se dedicado à capoeira com um fim social e educacional, foi a melhor decisão que teve. Embora reconheça que ter sido consultora a ajudou a aprender a metodologia e lhe deu experiência em estruturar programas e relatórios. Para o futuro, gostaria de transformar as histórias de Kioni numa série de animação 3D, o que é um projecto bastante caro (o orçamento é de quatro milhões de euros). Por agora, foi lançado o trailer de Kioni - A Lenda da Capoeira, com dois minutos e meio, enquanto continua a decorrer uma campanha de crowdfunding. Joana tem esperança. Afinal, diz, o filme de animação Nayola: Em Busca de Minha Ancestralidade, realizado por José Miguel Ribeiro, a partir da peça A Caixa Preta, de Agualusa e Mia Couto, demorou dez anos a ser feito.
Retrato feito a partir de uma conversa realizada em Maputo no dia 27 de Novembro de 2025. É o décimo oitavo de uma série sobre moçambicanos a ser publicada aqui no blogue.
Kioni, A Pequena Mandingueira - A Lenda do Berimbau, Kioni, A Pequena Mandingueira - Berimbau Toca Cavalaria e Kioni, A Pequena Mandingueira - Chama São Bento Grande são os três livros da colecção até agora publicados. Estão traduzidos em cinco línguas e disponíveis em 38 países, estando em processo de finalização a edição no Japão. Podem ser comprados na livraria Mabuko, em Maputo, ou directamente com a autora pelo Instagram. Mais informações aqui.
O Capoeira Para Um Futuro, a parte mais humanitária do projecto Ubuntus Capoeira ("Eu sou porque nós somos"), a associação cultural criada por Joana, está presente em Nampula, Tete, Cabo Delgado, Zambézia e Maputo. Trata-se de um projecto que usa a capoeira e a literatura como ferramentas de inclusão, pelo fim da violência e das uniões prematuras. Mais informações aqui.
A campanha de crowdfunding para a produção da série de animação Kioni - A Lenda da Capoeira decorre no Brasil e em Moçambique (ali através do MPESA 844499600).





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