#2 Moçambicanos - Maria da Conceição Amade, Ilha de Moçambique

Dona Conceição, ou de seu nome completo Maria da Conceição Amade (sendo que o Maria foi herdado da sua avó materna, que era da Tanzânia), nasceu na Ilha, onde estudou e quase sempre viveu ("A minha vida é a Ilha de Moçambique. Passei todo o tempo infinito aqui."). Já festejou os 90 anos, mas pode ter dias em que acha que tem 85. Diz que com esta idade já não há muita gente por ali ("Alguns já foram, na verdade."). Não se lembra de muitas coisas sobre os pais, mas  lembra-se bem de ter vivido desde criança e até por volta dos 21 anos, em regime de internato, na instituição católica Creche António Joaquim, que ficava ao lado do Hospital e era gerida por freiras. Talvez por isso diga que conhece "mais coisas da parte europeia do que da africana".

Numa ilha maioritariamente muçulmana, apresenta-se como "católica apostólica romana". E durante a nossa primeira conversa, que teve lugar no largo junto à estátua de Camões, onde gosta de passar os dias, alguém lhe levou de presente uma capulana comemorativa do dia da padroeira da Ilha, a Nossa Senhora da Purificação, que se tinha assinalado na véspera, a 2 de Fevereiro. Seria para usar na missa do domingo seguinte, na Igreja da Misericórdia. Com a capulana, Dona Conceição pensa mandar fazer um vestido, diz que lhe cai se usada só enrolada à volta da cintura.

Titia Conceição, como alguns antigos alunos a tratam, foi professora na escola primária Luís de Camões, que depois da independência se passou a chamar 25 de Junho. Ali ensinou Português, História, Geografia, Matemática, praticamente todas as matérias. Saiu por uma causa que "nem sabe dizer", mas sabe que não recebe reforma, apesar de a ter pedido e de achar “não ter cometido nenhum erro”. Antes de ser professora ainda estudou enfermagem, em Nampula, por iniciativa dos seus padrinhos de baptismo,  mas acabou por não se dar bem e voltou para a Ilha.

Num dia 2 de Maio, Dona Conceição esteve para casar, mas abandonou o noivo no altar, um rapaz que lhe tinha sido apresentado por uma das irmãs da instituição onde vivia. Nessa data, o padre Alberto dos Santos (do noivo já não sabe o nome) celebrava dois casamentos. Só um acabou por acontecer. Diz que não gostava do rapaz, que não o conhecia bem, que nunca chegou sequer a dar-lhe um beijo. Ele vinha no entanto à Ilha ao fim de semana namorar, viajando de Nacala de comboio até ao Lumbo, que fica no  continente, e depois transportado de rebocador até perto da noiva que não lhe chegou a dizer um sim. Mas que não deixou de aproveitar o copo de água, já preparado, e de dançar no dia do não casamento.

Maria da Conceição, que não teve filhos e vive agora com uma sobrinha, acha que a Ilha actual não é nada daquilo que foi em tempos antigos. Ao Lumbo chegava não só o comboio como aterravam aviões (e o aeródromo ainda lá está, com a sua aerogare e a torre de controle em bom estado). E à Ilha, onde havia uma "empresa importantíssima", a João Ferreira dos Santos, chegavam navios com nomes que sabe de cor: Príncipe Perfeito. D. Afonso Henriques ou Moçambique. A Fortaleza de São Sebastião tinha nessa altura soldados e também "sentenciados".

Na sua casa, que fica a poucos metros do Largo Luís de Camões, Dona Conceição guarda um álbum de fotografias e um saquinho de pano com recordações. No álbum tem fotografias de crianças que passaram pela sua escolinha, algumas tiradas no Dia da Criança, outras do grupo cultural Fura Redes, onde os homens tocavam batuque e as mulheres dançavam tufo, e uma que tem escrito no verso a data, 4 de Julho de 2012, e a descrição "Chegada nesta Ilha de Moçambique de D. Jorge, o representante do Papa. Para Maria da Conceição". No saquinho guarda 10 notas novas de 100 escudos, impressas em Lisboa no dia 27 de Março de 1961, com a cara de Aires de Ornelas, Governador Geral de Moçambique entre 1896 e 1898. Só se lembrou que as tinha muito tempo depois de terem saído de circulação.

A antiga professora foi uma das entrevistadas do livro Islanders / Ilhéus, de Moira Forjaz, sobre os mais idosos da Ilha e que foi lançado em Maputo no final de 2018. E na conversa aí publicada, onde afirma que a sua história "é ao mesmo tempo grande, pequena e pobre", há mais pormenores sobre a sua vida, que a memória talvez tenha entretanto apagado. Maria da Conceição chegou a casar em Nampula com um António, um homem da então Lourenço Marques, exactamente um ano depois do casamento falhado, mas havia de se separar pouco tempo depois por causa de uma Inês. A enfermagem foi abandonada por se sentir mal e adoecer quando era levada "para a sala de operação". Fez o curso de formação de professores na Carapira, no distrito de Monapo, por insistência de um padre. Terá sido obrigada pelo Estado a afastar-se do ensino por sempre ter sido próxima dos portugueses e membro da então Mocidade Portuguesa. E sem direito a pensão. Nos anos 90, foi directora dos 12 centros de escolinhas criados pela Associação dos Amigos da Ilha, que acabaram por fechar por falta de fundos. Depois disso, criou com outras educadoras um centro que funcionava com o que cada pai podia dar. Trabalhou até tarde, já em cadeira de rodas (agora caminha com a ajuda de um andarilho), como animadora de crianças. E já agora, o noivo abandonado chamava-se Manuel.





Retrato feito a partir de uma conversa realizada na Ilha de Moçambique nos dias 3 e 7 de Fevereiro de 2023 e da entrevista recolhida para o livro Ilhéus, de Moira Forjaz. É o segundo de uma série sobre moçambicanos a ser publicada aqui no blogue.


Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares