#21 Moçambicanos - Angelina Neves, Ponta do Ouro
Angelina Neves, antiga secretária do Presidente Samora,
nasceu em Moçambique em 1951, a 14 de Julho, o mesmo dia que em França, em
1789, teve lugar a tomada da Bastilha e o início da Revolução. Talvez por isso,
seja toda a favor da liberdade e da igualdade. A sua mãe, que morreu de cancro
quando Angelina tinha nove anos, nasceu também em Moçambique. O pai, militar, proveniente de Portugal, havia de chegar a África de barco, tendo avistado de
imediato, no cais, a mulher por quem se apaixonou e com viria a casar. Juntos
tiveram cinco filhos, Angelina a mais velha. Aos seus irmãos mais novos
lembra-se de lhes ler livros e de lhes contar histórias. Mais tarde, no tempo
do racionamento dos bens essenciais, foram eles que partilharam consigo parte
da sua dose mensal de açúcar, depois do filho mais velho de Angelina, Daniel,
ter enterrado num canteiro, para ver se crescia, todo o açúcar que havia em
casa.
A família viveu quase sempre por Maputo, à excepção de
dois anos em São Tomé, onde nasceram dois irmãos, e de uma ou duas passagens
rápidas por Portugal, onde a mãe não lhes dava grande liberdade. Aí foram viver
para uma "flat" que ficava perto de uma leitaria e numa manhã decidiu
ir com a irmã buscar leite, sem dinheiro nem nada, achando que toda a gente as
conhecia. Acabaram proibidas de sair de casa e de abrir a porta a quem batesse.
Mais tarde, já a viver com os avós maternos, com quem ficou depois da morte da
mãe, fez a escola secundária na África do Sul. Nessa altura, adorava ler, mas a
avó teria preferido que ela aprendesse a costurar. O pai adoeceu entretanto, com esclerose múltipla, e morreu em dez anos, já depois do 25 de Abril de 1974, mas
antes da independência.
Quando regressou a Moçambique, Angelina teve ainda de
fazer as disciplinas de Português, Francês e História, por não haver
equivalência, e escolheu fazê-las à noite, tendo também começado a trabalhar na organização Democratas de Moçambique, que tratava de
recolher as histórias dos presos políticos que passaram pela Vila Algarve, em
Maputo, e também pela prisão da Machava. Mas a 7 de Setembro de 1974, data da
assinatura dos Acordos de Lusaca, opositores à entrega de Moçambique sem
consulta popular tomaram a Rádio Clube e queimaram também os arquivos dos
Democratas. Angelina acha que se salvou muito pouco.
Ao longo da vida, lembra-se de ter querido ser poeta, pintora, professora, escritora, achando agora que acabou por ser um pouco de tudo, embora "muito indisciplinadamente". Publicou dois livros de poesia, depois de se ter reformado, juntando coisas que foi escrevendo, e tem vários livros infantis editados (O Coelho e a Hiena e O Coelho e o Macaco são dois deles). E durante dez anos, foi uma das secretárias de Samora Machel, o primeiro Presidente após a independência, apesar de nunca ter sido membro da Frelimo com cartão, apenas "membro de coração". Sempre o considerou “uma pessoa muito íntegra”.
Desse tempo, período em que viajou muito, lembra-se de
que se cantava “antes e depois de qualquer coisa: antes das aulas, depois das
aulas, antes das reuniões, depois das reuniões, antes de um trabalho, depois de
um trabalho”. E de numa visita à Bulgária, “o camarada Presidente”, que era
assim chamado antes das “burocracias” e do posterior “Sua Excelência”, ter
desafiado o seu homólogo búlgaro para uma espécie de competição entre as duas
delegações. Mas entre os moçambicanos ninguém queria dar o tom e Samora, que
gostava de cantar mas desafinava, foi o primeiro. Angelina também se lembra do dia em que, muito constipada, teve de secretariar um encontro informal com um primeiro
ministro que estava de visita. Munida de uns quantos lenços de papel, que não
chegaram para toda a reunião, viu no final o Presidente pedir algo, baixinho,
ao segurança. Acabou este por regressar com dois lencinhos de pano, sendo que
um deles tinha bordado o nome de Graça Machel, então mulher de Samora.
No Moçambique pós-independência, podia ser-se
castigado por se ter um amante, pelo que Angelina, talvez por ser destemida,
informou o partido Frelimo quando se separou do pai do seu filho mais velho
(tem dois biológicos e dois adoptados). Numa tentativa de fazerem as pazes, o
Presidente Samora ofereceu-lhes umas férias, que, por vontade do ex-companheiro,
escolheram passar parte em Itália (visitaram Florença, o Vaticano). E que por
vontade de Angelina terminaram na praia, em Cabo Delgado. No final, informou
que não dava para ficarem juntos. E mais tarde, que tinha um namorado.
Algum tempo antes da morte de Samora, que
aconteceu em 1986, acabou por pedir para sair do cargo de secretária, por achar
que "aquilo já não estava a ser a sua revolução”. Na altura, tinha já participado
num livro infantil e colaborava também com o Jornal de Domingo, que tinha uma
página infantil. E começou então a trabalhar com a Acção Social, a UNICEF ou
com a organização Save the Children. Ajudou ainda a recolher histórias
tradicionais junto de idosos, que transformava em histórias para crianças. Foi
também professora primária em escolas privadas.
Há uns 11 ou 12 anos, depois de ter tido três
tuberculoses, acha que por fumar muito, e de ter perdido meio pulmão, decidiu
mudar-se de Maputo para a Ponta do Ouro, onde a vida é mais calma, com uma
amiga que já não está viva. Ainda a estrada estava a ser construída. E na Ponta
decidiu dar continuidade ao seu trabalho com crianças. Com a colaboração da
comunidade sul africana ali residente, recuperou um jardim comunitário, onde há
actividades de leitura, pintura, teatro ou jogos aos sábados, para miúdos (são entre 25 e 30 habitualmente), e também em dias especiais, como o Dia
da Criança ou no Natal (geralmente com mais crianças, podem aparecer 200 ou
300, ou até 500).
Com o apoio também do chefe de localidade,
constituíram a associação Khanimambo para tomar conta do jardim, que fica
localizado entre as ruas D e E e que tem baloiços, mesas com jogos pintados no
tampo, um armazém onde são guardados os materiais e os livros e um cuidador,
educador e jardineiro que ali trabalha há dez anos, António Langa. Depois de três dias de
chuva sem parar terem destruído a biblioteca que tinham montado em três
geleiras, Angelina, que é presidente da associação, tem agora o sonho de criar uma
biblioteca e uma pequena videoteca com filmes educativos, talvez num contentor,
o que é um projecto caro. Também gostava de criar uma sala com computadores,
onde os miúdos mais velhos pudessem fazer cursos on-line, procurar oferta de
bolsas ou oportunidades de trabalho. Na Ponta, pode-se estudar até à 12ª classe,
mas depois só saindo. Por ali quase não há emprego.
Retrato feito a partir de uma conversa realizada na Ponta do Ouro, a 17 de Março de 2026. E também das três histórias escritas por Angelina Neves para o livro Buganvílias, Carapau e Repolho - Histórias do Tempo Vivido. É o vigésimo primeiro de uma série sobre moçambicanos a ser publicada aqui no blogue.
A associação Khanimbambo, sem fins lucrativos e constituída por um grupo de cerca de 20 pessoas da comunidade da Ponta do Ouro, é responsável pelas actividades que se realizam no jardim comunitário, mas também por outras actividades paralelas: tem prestado apoio a crianças com dificuldades físicas e às suas famílias (com produtos alimentares, medicamentos, cadeiras de rodas, consultas médicas e de fisioterapia, algumas vezes na África do Sul); apoio a mulheres solteiras com bebés e a avós que ficaram com os netos (uma vez por semana aprendem a fazer trabalhos manuais, como meio de sobrevivência); participação no projecto de limpeza da vila e da praia, o Ponta Clean. E todas as contribuições são bem vindas, para assegurar as despesas fixas (salário de 10 000 meticais para o cuidador do parque, compra de Credilec e materiais de limpeza e de jardinagem) e outras. Conta BCI 7141 2080 10001, IBAN: MZ59 000800007141208010180. Mais informações: angelinaneves187@gmail.com.




Comentários
Enviar um comentário