#22 Moçambicanos - Algemiro Pascoal Boane (Miro), Ponta do Ouro
O jovem Algemiro Pascoal Boane, mais conhecido por Miro e nascido em 2005 em Vilanculos, acha que sem o "resgaste" do projecto Lwandi Surf podia ser hoje um dos marginais mais temidos da Ponta do Ouro. Ou talvez fosse um "coiote", que é como se chama a quem ajuda outros a passar fronteiras ilegalmente. Por ali, a fronteira é a de Kosi Bay, a poucos quilómetros da povoação para onde Miro foi viver com mais ou menos um ano e meio, e quem paga para a passar são geralmente moçambicanos ou sul africanos sem documentos. Miro foi para a Ponta com os pais e os irmãos, que são sete, sendo ele o número seis, e depois disso ainda viveu em casa de uns tios, no bairro Luis Cabral, em Maputo. Mas foi já na povoação mais a sul de Moçambique que fez a escola primária e que começou a jogar futebol.
Fazia então parte da
equipa Ponta Barça e o mister era o francês Stéphane. Até que num belo
dia de 2019, eram por aí 18h, estava no final de um treino quando apareceram os
brasileiros Gabriel Carrião, Rómulo Lima e Gerson Severo a recrutar para um
projecto que pretendia usar o surf e outras actividades para promover a saúde
física e mental de jovens em situação de vulnerabilidade social. Eram todos recém
formados em engenharia civil e Rómulo e Gerson já tinham estado em Moçambique
dois anos antes, a fazer poços artesianos na cidade da Beira.
Como tinham um número limite de 30 participantes, pediram aos interessados para "chutar" a data de nascimento de cada um dos três e Miro acabou recrutado. Nessa altura, tinha tido já o seu primeiro contacto com o mar com o sul-africano Dário, dono do Love Café e há muitos anos na Ponta, com quem aprendeu as primeiras noções básicas do surf, como saber colocar-se de pé em cima de uma prancha. E no início, havia só uma prancha de surf para 30 crianças, uma Malibu (que em termos de tamanho fica entre short e a long board), e uma prancha para bodyboard. Ir à escola era (e ainda é) condição essencial para ter aulas de surf e participar no projecto.
Antes de praticar surf,
no 6º ou no 7º ano, Miro, que não era bom aluno ("Nem lá muito") e
que tinha a sua própria team, começou a ser chefe de um gangue.
Juntos, faziam "coisas fora do comum" e de que não gosta de falar
(dizia sempre aos colegas que o que acontecia na escola devia ficar na escola).
Ainda hoje continua a ter o gangue, mas agora é uma espécie de gangue bom, com
cada um focado no seu futuro e inspirados pelos valores do Lwandi Surf, como a
empatia ou como o viver em família, sendo que esta pode não ser a de sangue.
Dos amigos do gangue, três são hoje instrutores de mergulho, dois fazem casas de
madeira, um no Mar e Sol outro em Ponta Mamoli, um deles é barman no
Beach Bar, um outro faz piscinas. Todos passaram pelo
Miro, que foi campeão
nacional, em 2023, no Tofo Surf Series e que pratica surf quase todos os dias,
teve através do projecto oportunidade de ter formação como nadador salvador
(eram inicialmente dez rapazes, oito concluíram) e também de fazer o curso para
ser instrutor de mergulho. Fez até ao divemaster, mas em
Outubro do ano passado teve de interromper, pois exames médicos mostraram que
tem um problema no coração e no rim esquerdo, que são maiores do que o normal. Tem
também a tensão arterial alta, podendo em dias de muito calor chegar a mais de 20.
Está a fazer tratamento, enquanto os médicos tentam perceber as causas.
Por agora, Miro trabalha na sala de jogos do Ponta Mar Resort, é instrutor de natação na piscina do Coco Cabanas para os alunos do Lwandi Surf e aos fins de semana trabalha na praia como nadador salvador. Mas tem sonhos para o futuro e também já os tinha em criança. O primeiro, com uns 10 ou 11 anos, era ser juiz, talvez por achar o mundo muito injusto (acha que foi por isso que formou o gangue). Depois disso, quis ser biólogo marinho (e ainda quer), quis ser piloto (também ainda quer, mas acha que não tem como). Noutra altura quis ser “doutor”, por achar que os doentes nem sempre são bem tratados. E chegou a estudar Medicina Geral durante um ano e meio no IPET, um instituto politécnico privado na Av. Eduardo Mondlane, em Maputo. Mas quando perdeu o pai, que considera o momento mais triste da sua vida, não conseguiu continuar, “por falta de fundos” (a propina custava 3650 meticais por mês, cerca de 45 euros ao câmbio actual). Foi um dos melhores alunos da turma, apesar das saudades do mar e de a cabeça só pensar na praia.
Talvez se candidate no próximo ano lectivo a Biologia Marinha na Eduardo Mondlane, uma universidade pública (“Tem de ser Biologia mesmo”, diz). E o que gostava de fazer depois era trabalhar em Durban, na África do Sul, como instrutor de mergulho (assim consiga terminar o curso), mais tarde viajar para Portugal para conhecer as ondas da Nazaré e também para Espanha, onde se faz mergulho em altitude, nas montanhas. Entretanto, goza o sucesso de ter participado num anúncio dos sumos Compal, a convite da Golo, de Thiago Fonseca, também surfista e apaixonado pela Ponta (por ali, há quem cante a música do anúncio quando Miro passa). E sobretudo de ser o protagonista do short film Surf for Life, produzido pela mesma agência para o Parque Nacional de Maputo e que acaba de ser lançado, a 20 de Junho, Dia Mundial do Surf. Tem este como objectivo mostrar como o surf transforma vidas ou como os projectos Lwandi Surf e Ponta Lifeguard permitiram até agora ensinar surf a cerca de 118 jovens, treinar 8 nadadores salvadores (que só não trabalham agora todos os dias por não haver fundos) e salvar nos últimos anos mais de 50 vidas do nem sempre calmo mar da Ponta do Ouro.
| Fotografia do sul africano Luke Patterson, responsável pelas filmagens dentro de água do Surf For Life |
Retrato feito a partir de uma conversa realizada na Ponta do Ouro, a 18 de Março de 2026. É o vigésimo segundo de uma série sobre moçambicanos a ser publicada aqui no blogue.
A organização sem fins lucrativos Lwandi Surf, hoje a cargo de Gabriel Carrião e Rómulo Lima, é uma espécie de segunda escola, proporcionando aulas de surf, inglês, capoeira (aos sábados), meditação ou rodas de conversa. Recruta anualmente 30 jovens, entre rapazes e raparigas. E todos podem contribuir para o projecto, que foi buscar o nome, Lwandi, à palavra mar na língua changana. Mais informações através do e-mail lwandisurf@gmail.com, do +258 847936752 ou na página do Facebook.
Comentários
Enviar um comentário