#20 Moçambicanos - Sebastião Coana, Maputo
Sebastião Coana, artista plástico que fez a sua
primeira exposição com 18 anos, nasceu em 1987 no Posto Administrativo de 3 de
Fevereiro, na Manhiça, de onde teve de sair com a família por causa da guerra
civil. Aos 6, mudou-se para Maputo e aí viveu primeiro em Xipamanine e depois
no Unidade 7, um bairro muito cultural, o que acha ter influenciado a sua
carreira. Frequentou a primária na Escola Mista de Chamanculo, a primeira
depois do tempo colonial a ter alunos negros e brancos, e na 3ª classe já
desenhava. Lembra-se dos mapas que fazia no quadro para ajudar a explicar a
matéria, depois do professor ter descoberto que tinha "um pouco de
talento". Ou de mais tarde ter sido um dos meninos selecionados para fazer
o desenho que recebeu a atleta Maria de Lurdes Mutola, vinda dos jogos
olímpicos de Sidney, onde em 2000 conquistou a medalha de ouro nos 800 metros.
Entre os 13 e os 15 anos, teve aulas de iniciação
artística no Museu Nacional de Arte, em Maputo, onde conheceu ao vivo as obras
de Malangatana, Chissano ou Cichorro, que considera grandes mestres da cultura moçambicana.
E entre as aulas de arte, que acabavam às 11h, e as da escola secundária, que
começavam por volta das 13h, queimava o tempo na biblioteca do Centro de
Estudos Brasileiros, lendo livros de Arquitectura ou de História. A dada
altura, por volta de 2002, a Escola Secundária Francisco Manyanga, que
estão frequentava, participou num concurso de pintura de "murais
falantes", ou murais que educam. E acabou por ganhar um prémio com as suas
obras, que ainda existem, lá na escola, mas a precisar de serem recuperadas. À
escola pediu que o prémio lhe fosse pago com um uniforme escolar, um
equipamento de ginástica, que não tinha, e com material de pintura, que haveria
de ser usado para a sua primeira exposição individual.
Ao fim de dois anos tinha 20 telas, pois tinha na
mente que um artista tinha de ter pelo menos 20 trabalhos para “submeter à
curadoria". Escreveu então uma carta pedindo apoio ao FUNDAC – Fundo para
o Desenvolvimento Artístico e Cultural, que descobriu investigando na Internet.
Apresentou-se como “um artista de palmo e meio", que precisava de ajuda
para profissionalizar a sua carreira, e acabou por receber algum dinheiro para
mais materiais, que comprou na Maxi Design, em Maputo. Juntando ao que já tinha, considera
que conseguiu ter trabalhos de boa qualidade. E obras feitas, precisava de encontrar
uma galeria para as expor e conseguir que houvesse também um cocktail,
no mínimo com umas chamuças, para garantir a presença de mais gente, de
jornalistas. E então escreveu mais cartas, mais de 20, dirigidas aos adidos
culturais de várias embaixadas e a responsáveis de empresas. Mas os que lhe responderam,
fizeram-no com um não.
Valeram-lhe então várias mulheres, que se
juntaram para “amadrinhar” a exposição (o apoio da sua mãe tinha-o desde o
início): a directora da escola onde estudava e onde pintou os primeiros murais,
que tinha “um carinho” por si, por Coana ter posto a escola “num brilho”, a
directora do Museu Nacional de Arte, que na altura era Julieta Massimbe, e
também a directora da Casa da Cultura do Alto Maé, que se chama agora Casa da
Cultura da Cidade de Maputo. Foi aí que acabou por mostrar as suas obras,
fazendo então de novo cartas-convite a todas as instituições, o que foi
decisivo para uma reviravolta na sua vida.
Coana andava nessa altura preocupado com o que
iria fazer quando terminasse a 12ª classe, com o acesso ao ensino superior,
pois sabia que as universidades públicas têm vagas muito limitadas e que não
teria condições de ir para uma faculdade privada. Por isso tinha entrado em
contacto com uma universidade americana de Belas Artes, em Minneapolis, onde
tinha conseguido uma bolsa de estudo, com a condição de apresentar um
certificado em como dominava a língua inglesa. E Coana já falava inglês, mas
acabou por perder a bolsa por não ter tido maneira de pagar a taxa para fazer o
exame. Até tinha o dinheiro, que conseguira com a venda de um quadro, mas
faltava-lhe um cartão de crédito necessário para fazer o pagamento e o prazo passou.
Durante a exposição, contou o sucedido a um
diplomata chinês, que tinha respondido “sim” ao convite para estar presente. E
ele pediu que Coana lhe enviasse fotografias de alguns quadros e também dois
originais, que podiam ser pequenos. Enviou e acabou admitido na Escola de
Arquitectura da Academia Central de Belas Artes em Pequim, com uma bolsa
completa. Quando partiu para a China, em 2006, era o rapaz mais feliz:
podia tropeçar na rua que não se zangava, podiam provocá-lo que não se
chateava. Tinha 19 anos quando “subiu avião” pela primeira vez, viajando
para Pequim via Etiópia.
Chegado a Pequim, conheceu alguns artistas
chineses e continuou a pintar, tendo feito a primeira exposição individual por
lá em 2007, na Universidade Internacional de Língua e Cultura de Pequim, que considera
ter sido um sucesso. E usou mais uma vez o dinheiro para melhorar a sua
carreira, o que continua ainda hoje a fazer. Também conseguiu organizar algumas
exposições com outros artistas moçambicanos e alguns eventos que contaram com
actuações musicais, como a da Banda Kakana. Entretanto, a língua era um
desafio, agravado por muito pouca gente falar inglês, e Coana teve aulas
durante um ano, 20 horas por semana, e também foi praticando na comunidade, com
novos amigos chineses. Actualmente, fala e escreve em mandarim.
E foi em mandarim que na licenciatura teve aulas
de História da Arte, Desenho, Matemática ou Pintura (como disciplina opcional),
o que serviu para “esticar o cérebro”. Coana optou por estudar Arquitectura, o
que fez na Escola de Arquitectura da Academia Central de Belas Artes da China,
por querer perceber como combinar as artes plásticas com o volume dos objectos.
Mais tarde, fez um mestrado em Finanças Internacionais, na Universidade de
Negócios e Economia Internacional de Pequim, por querer perceber também até que
ponto se olha a arte como um investimento, qual a relação entre as belas artes
e as finanças ou como funcionam as leis do mecenato. “Tinha de sentar na sala de aula para poder perceber”, explica.
Depois de dez anos na China, onde havia mais uns
11 ou 12 estudantes moçambicanos quando Coana lá estudava (mas divididos por
várias cidades, algumas bem distantes), voltou a Moçambique (“Eu tinha de
voltar”). Considera que o país é um mercado fértil, apesar das dificuldades, e
que se se conseguir vender arte por lá se vende em qualquer parte do mundo, em
qualquer planeta (“É uma espécie de campo de ensaio”). Entretanto criou uma
associação, o Movimento Artístico de Moçambique, que pretende transformar o
talento em ganha pão, profissionalizando outros artistas e artesãos. A ideia é
transferir conhecimento, de modo a que quem produz se consiga posicionar no
mercado. Nos últimos anos, conseguiram
fazer mais de 50 pinturas e murais educativos em vários distritos do país e em
cada mural participaram em média cerca de dez jovens, que foram capacitados
para ganhar a vida pintando, fazendo a sua própria arte.
Se houve um tempo em que Coana só queria ter “um pouco de acrílico e bisnagas de óleo”, com o crescimento da carreira viu os sonhos e as necessidades cresceram também. Percebeu que o que agora quer é criar infraestruturas para que possa haver “mais Coanas em Moçambique”. É por isso que está a construir um grande estúdio e residência artística na Costa do Sol, no bairro Dona Alice, a funcionar ainda em fase piloto e que quando terminado representará um investimento de cerca de 22 milhões de meticais (um pouco menos de 300 mil euros), valor que tem sido financiado com a venda de obras de arte. Ali, pretende juntar no “mesmo quintal”, para tornar as coisas mais eficientes, cerca de 300 artesãos e artistas (o que calcula representar cerca de 1500 beneficiários indirectos) com uma equipa que perceba de comércio internacional. Com esta iniciativa, que deverá estar concluída até ao final do ano, quer numa primeira fase gerar postos de trabalho, criando acesso ao mercado e à exportação (por exemplo, para a indústria de design de interiores). E num segundo passo, uma vez estabilizada a unidade de produção, promover a participação de artistas que desenvolvam uma arte mais de autor em bienais fora do país.
Paralelamente à conclusão deste centro de arte, Coana, que tem obras em mais de 25 países e que no ano passado foi distinguido pela revista Xonguila como Figura Cultural do Ano em Moçambique, tem para 2026 vários projectos em curso. Com o município da Matola está a negociar uma pintura mural, numa parede grande, que preste uma homenagem à rainha Xivangila, do Niassa, que dizem ter salvo mais de 1000 pessoas de serem escravizadas. Ou a Paulina Chiziane. Não sabe qual deles vão aprovar (“As pessoas têm medo da Paulina, porque ela fala”). E é com a “mamã” Paulina, vencedora do Prémio Camões em 2021, que tem um projecto muito especial. Por iniciativa do artista e aceitação da escritora (“Ela ama muito as minhas ideias”), será lançado um catálogo de arte e pintura com literatura. A ideia é Paulina entregar-lhe os textos manuscritos, com a sua caligrafia, com os riscos feitos no caso de ter mudado alguma ideia (o que será em si também uma obra de arte) e Coana exteriorizar as palavras dela através da pintura. O que já começou a fazer.
Retrato feito a partir de uma conversa realizada em Maputo, num muito chuvoso 12 de Março de 2026. É o vigésimo de uma série sobre moçambicanos a ser publicada aqui no blogue.
Pinturas murais de Sebastião Coana podem ser vistas na Travessa da Palmeira e na Rua da Gávea, onde há obras que resultaram da primeira fase do projecto de responsabilidade social Bring Back Maputo (uma iniciativa do Conselho Municipal e das tintas CIN que envolveu cerca de 20 artistas e a pintura de 23 fachadas e de 7 obras de arte urbana). Em Maputo, Coana pintou também na Rua do Bagamoyo, nas Escadarias das Barreiras, que conduzem ao Museu de História Natural, ou na FEIMA – Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia (sinaléctica, portões, alguns bancos). Na Matola, tem um mural de 50 por 10 metros na fachada do edifício do Conselho Municipal.



Comentários
Enviar um comentário