Jordânia: um tchim tchim em Madaba com um Jordan River

Madaba, "a cidade dos mosaicos" e a principal cidade cristã da Jordânia, localizada a sul de Amã e próximo do Queen Alia International Airport (que fica a uns 25 quilómetros e a uma meia hora de carro) é um bom ponto de chegada e de partida de uma viagem pelo país. Ou pelo menos uma paragem a incluir no programa. Nós chegámos lá ao terceira dia, um dia animado por eleições municipais, depois de uma manhã tranquila a visitar os "castelos" do deserto, e não podíamos ter tido melhor acolhimento. Por parte dos habitantes, sendo que alguns pararam o carro para me dar prioridade a fotografar, outros ofereceram-me cartões de visita de alguns dos candidatos eleitorais, não fosse eu querer votar, outros sorriram e cumprimentaram. Ou no alojamento escolhido, o Tell Madaba Hotel, que é assim uma espécie de moradia onde quem chega é recebido pelos proprietários com um chá, uns bolinhos e toda a hospitalidade do mundo.

A visita pela cidade, que na época bizantina foi uma verdadeira escola de mosaicos e que hoje continua com essa tradição, sobretudo com o trabalho do Madaba Institute for Mosaic Art and Restoration, pode começar pelo Centro de Visitantes, que tem wi-fi gratuito, um livrinho disponível sobre o que há para ver e fazer por ali e mesas e bancos para descansar, piquenicar ou beber um sumo de romã comprado ali ao lado ("No sugar, no water, no ice", vai prometendo o vendedor a quem passa). E praticamente ao lado do Centro fica o Parque Arqueológico, onde há mosaicos em exposição encontrados em vários locais da Jordânia, as ruínas de três igrejas bizantinas e o que resta de uma estrada romana. Um pouco adiante, encontra-se a igreja ortodoxa grega dedicada a São Jorge, a Kanesset Saint Georges, que tem como principal relíquia  o que resta de um mapa da Palestina feito em mosaicos e que data do século VI. Destinava-se este a orientar os peregrinos e tinha originalmente 15.7 metros por 5.6. Na parte alta da cidade, na antiga acrópole, onde carros, homens, rapazes e polícias se concentravam numa grande confusão à beira de um lugar de votação, encontra o visitante um santuário dedicado a São João Baptista, conhecido como Igreja Latina e onde escavações recentes puseram a descoberto um pavimento romano. E que vende na recepção um vinho produzido nas margens do Rio Jordão, um bem raro num país maioritariamente muçulmano, em que a bebida nacional é o chá, também chamado "whisky" dos beduínos.

O Palácio Incendiado, o al Qasr al Mahroua, que contém as ruínas da Igreja dos Mártires e um chão em mosaicos com cenas da vida do dia a dia; a Igreja dos Apóstolos, a al Kanisset al Russel, que data do século VI e que tem um pavimento no qual se vê o deus grego dos mares, Thalassa, a nadar com golfinhos; ou um Museu onde restos de colunas romanas convivem com o casario à volta e onde o único empregado de serviço nos vai conduzindo por casinhas e divisões cheias de mosaicos do século VI (em troca, claro, de uma tip, uma quase instituição na Jordânia) são mais alguns dos locais que vale a pena descobrir.

O Tell Madaba Hotel, que tem uma tela com uma imagem religiosa colada na fachada, não faz parte da lista das atrações de Madaba mas podia fazer. Ali somos recebidos por Edward ("Um nome cristão", diz-nos) e pela sua mãe Muneera ("Um nome antigo", acha ela), que é responsável pelas coisas boas que são servidas ao pequeno almoço e pelos doces de boas vindas. E com Edward não seguimos logo à chegada um dos conselhos dados no Le Routard sobre a Jordânia: não falar de religião e política com quem não se conhece bem. Edward acabou de votar e tem um dos dedos marcado com tinta, que demorará talvez um mês a sair. Mas ele não vê necessidade de tal procedimento, até porque toda a gente tem de usar identificação para votar. Neste caso, para as eleições locais e para mais duas eleições que ele não consegue traduzir para inglês. E porquê tanto policiamento ou mesmo carros blindados nos lugares de votação?, pergunto-lhe. Para evitar possíveis fraudes, confusões, talvez aliciamentos de última hora, explica o nosso anfitrião.

Com Edward falámos também de um assunto essencial em viagem: onde se come bem na cidade. Depois do Lebanese House Restaurant, em Jerash, a fasquia estava alta, mas Madaba não desiludiu. O almoço  teve lugar na varanda do Jaw Zaman, virada para a Rua Hussein Bin Ali, em pleno centro, e que dá para ficar a ver quem passa (tem pratos como o  musakhan, à base de frango e cebola, e todas as mezze do costume). E o jantar no concorrido Bawabit Madaba, que tem pratos como o sajiah, à base de carne e legumes e no qual brindámos à viagem com um copo de branco Jordan River, na realidade o único vinho que bebemos em duas semanas (tem menus a 12 dinares, cerca de 15 euros, e vinho a copo a 5,5, quase 7 euros). 

Havíamos de voltar a Madaba para a última noite, cumprindo o desejo de Muneera de nos voltar a ver em breve (a que acrescentou na altura um "God bless you"). Voltámos e ainda deu para conhecer um restaurante bem original, um pouco afastado das ruas mais movimentadas e instalado numa cave descoberta por acaso e por onde terão passado ao longo dos séculos várias civilizações, o Mrah Salameh. E mesmo na recta final, no nosso último dia na Jordânia que era também o primeiro dia do Ramadão (e por causa dessa celebração nada de álcool na ementa), almoçamos no Ayola. Fica quase em frente da Igreja de São Jorge e tem talvez a melhor relação qualidade - quantidade - preço da cidade. Seguimos para o aeroporto munidos de um take away de falafel.

Em Madaba conhecemos uma norte americana do Novo México, talvez perto dos 70, hóspede habitual do nosso hotel. Contou-nos que tem feito trabalho voluntário de arqueologia no Vale do Jordão e que está na Jordânia pela décima vez, apesar de não conhecer muitos outros países do mundo. Justifica que se apaixonou pelo povo e que lhe apetece voltar sempre. Estávamos no terceiro dia de viagem, ainda nem tinha conhecido Sami em Wadi Mujib ou Shadi em Wadi Musa, mas achei que também eu não me importaria de voltar.























































Um quarto duplo no Tell Madaba Hotel reservado no Booking custou 32 dinares (cerca de 41,50 euros) com um farto pequeno almoço incluído. A última noite na Jordânia custou 28 dinares (cerca de 36 euros), com reserva directa no alojamento.

A entrada no Parque Arqueológico, Palácio Incendiado, Museu de Madaba e Igreja dos Apóstolos está incluída no Jordan Pass. Custa 3 dinares para cada um dos locais para quem não o tenha. Os bilhetes para a Igreja de São Jorge e para o Santuário de São João Baptista custam 1 dinar.

Mais sobre a viagem à Jordânia nos links: Jerash e AjlounAzraq e Castelos do DesertoWadi Mujib e Estrada do ReiAqabaWadi RumPetraMar Morto e Amã.


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