#23 Moçambicanos - Anísio Macicame, Maputo
Anísio Macicame, que nunca escolheu ser artista, tem 35 anos feitos em Maio e dois filhos, um rapaz e uma rapariga, que anda na 2ª classe. Cresceu na cidade de Maputo, na zona suburbana de Polana Caniço, na companhia de oito irmãos, dois homens e seis meninas, depois de ter perdido a mãe quando tinha dois meses. Nos primeiros tempos viveu com a avó materna e com as tias e mais tarde com o pai, que o foi "roubar à sograria", nome dado em Moçambique à casa da sogra. E também com a madrasta, sem saber que esta não era a sua mãe biológica. Ela só lhe contou mais tarde, quando já tinha alguma idade. Agora, considera que é ela a sua mãe, com quem continua a manter uma boa relação, tão boa que acha isso uma coisa rara. Acabou por perder o pai em 2009, quando passava da escola industrial, onde andou até à 10ª classe, para um instituto onde iria continuar os estudos. Mas as coisas ficaram "apertadas" e deixou e ter condições para pagar as propinas.
Quando fez química analítica na escola industrial teve a ilusão, em alguns momentos, de que poderia trabalhar num laboratório, que poderia vir a ser químico. Mas chegou a uma altura em que não sabia o que queria ser, só queria ter um sustento. Até que quando tinha uns 22 ou 23 anos, época em que já não estudava e ia fazendo uns biscates, como vender ovos que um vizinho lhe arranjava, conheceu no seu bairro o artista Mateus Sithole, natural de Chimoio mas que cresceu no Zimbabué. Nessa altura não tinha nenhuma noção do que era a arte ou de que um dia poderia ser artista, mas gostava de o ir ver pintar, sobretudo obras monocromáticas que fazia num espaço que ali tinha arrendado e que vendia na rua, na zona do antigo mercado do peixe. Quando o holandês Patrick, da organização sem fins lucrativos Favela United, convidou Mateus Sithole para pintar um mural, num projecto da Acção Social, Anísio acabou por pegar num pincel e participar também. E ouviu de Sithole um "Você pinta como se já soubesse pintar".
Depois de ver o seu potencial, Mateus Sithole quis ajudá-lo e arranjou maneira de Anísio começar a pintar cartazes publicitários para a cerveja 2M, o que fez durante um ano, a ganhar 6000 meticais por mês (cerca de 81 euros ao câmbio actual), trabalhando todos os dias. Com os restinhos de tinta, pintava ainda um hamburger numa barraquinha, uma letra aqui, uma letra ali. E foi assim que começou a aperfeiçoar a técnica. Entretanto, o contrato para pintar os cartazes acabou, altura também em que a sua mulher ficou grávida do primeiro filho, e Mateus Sithole quis ajudá-lo ainda mais: pintou as primeiras telas que Anísio vendeu, uns quadros a preto e branco representando uns masai com umas setas. Tinha uns 25 anos quando se sentou em frente ao restaurante Sagres, na Marginal, e começou a vender. Quando as coisas apertavam, ia até às bombas de gasolina junto ao Clube Marítimo de Desportos ou até à zona do Polana Shopping.
Conheceu nessa altura Carmen Lara, estilista e criadora da marca Sabatha, que lhe disse que pela forma como pintava não merecia andar na rua. Passou a enviar-lhe fotografias, por WhatsApp, que Anísio reproduzia e ela comprava, algumas para o seu atelier, outras para vender. E o seu traço foi melhorando. Foi também conhecendo alguns turistas, a quem ia vendendo, e também uma portuguesa que era professora na Escola Portuguesa de Moçambique, para quem trabalhou durante um ano. E que lhe ia fornecendo tintas de óleo. Até que um dia voltou ao amigo Mateus Sithole, que era então membro do Núcleo de Arte e a quem disse que já não queria vender na rua. Passaram a ser como família, como irmãos.
Na época do Covid 19, começaram a fazer murais nos hospitais, em Maputo e nas províncias. Mateus Sithole como mentor dos projectos, Anísio como ajudante. Mais tarde, pintaram juntos o mural da biodiversidade, perto do aeroporto, e foi aí que acabaram por ter uma desavença, um desentendimento que Anísio considera grave e que estará relacionado com a partilha do montante pago pela obra. Ainda pintaram também o mural da maternidade do Hospital Central (por ser Sithole a ter o alvará), a convite de uma ONG que tinha visto uma fotografia tirada pela agência publicitária Golo ao camaleão que Anísio pintou durante três dias no mural da biodiversidade. Mas as coisas complicaram-se e Anísio acabou mesmo por cortar laços com o que considera ser o seu mentor, alguém que o encontrou "cru" e que o despertou para um mundo que ele nem conhecia. Nessa altura, Anísio dava aulas de pintura numa instituição de ensino na zona das Mahotas, o externato Fundane, de alguém que tinha conhecido no tempo em que vendia na Sagres, e mais tarde acabou por conseguir o alvará passado pelo Conselho Municipal.
Das pessoas que foi conhecendo no mundo das artes, Anísio gosta de destacar nomes como o do artista Sebastião Coana, que um dia lhe ofereceu seis latas de tinta seladas, sem pedir explicações ("Tem coração"), o de José Soares, das tintas CIN, pelo apoio que dá a todos os artistas, ou o do português Rui Silva (ver aqui), uma pessoa "verdadeiramente generosa e humilde" com quem começou a trabalhar recentemente, tendo-se sentido desde então "um real artista", com capacidade de caminhar. E Anísio, que por estes dias expõe no restaurante Spazio, em Maputo, e que enviou para Itália, com a ajuda de uma amiga moçambicana, algumas obras (para experimentar um novo mercado), gostava que o seu caminho passasse por concretizar um sonho: fazer uma exposição individual no Instituto Camões, com telas grandes. E a quem eventualmente perguntar "Quem é esse artista para expor no Camões?" responderá que a a arte não pode ser sempre dos Naguibes, que tem de haver mudança, haver crescimento. Anísio, que gosta de brincar com as cores e de pintar crianças e mulheres, também quer que o seu caminho passe por ajudar os outros. Para os murais que pintou recentemente, recrutou um amigo com quem cresceu, Francisco, que lavava carros num Car Wash que instalou em casa e que agora está a ganhar jeito para pintar. Ou Alexandre, um colega que vem do tempo de Mateus Sithole. Considera que ajudar alguém é uma coisa que não tem preço.
Retrato feito a partir de uma conversa realizada na FEIMA, em Maputo, a 23 de Março de 2026. É o vigésimo terceiro de uma série sobre moçambicanos a ser publicada aqui no blogue.





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