#24 Moçambicanos - Sérgio Santimano, Maputo

O fotógrafo Sérgio Santimano, que elege o retrato de um miúdo de Pemba com uma máquina fotográfica moldada em barro como uma das suas fotografias de que mais gosta, nasceu em 1956 na então Lourenço Marques, actual Maputo. Começou por estudar contabilidade e durante três anos, após a independência, trabalhou nessa área numa empresa privada. Mas já nessa altura se interessava por fotografia, ocupando as horas livres em laboratórios de amigos, instalados geralmente nas traseiras das casas. Tinha também uma ligação próxima com os cineclubes e como as suas amizades eram mais com jornalistas e artistas, acabou por abandonar a contabilidade. Ainda quis fazer cinema e chegou a visitar Cuba, para ver se havia possibilidade de aí estudar, no Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica. Viajou via Moscovo, onde ficou dez dias e onde comprou a primeira câmara, uma Zénit. E entretanto, foi ainda a Paris com o mesmo objectivo, mas acabou por desistir da ideia. 

Em Lisboa, no Instituto Português de Fotografia, fez a primeira formação em fotografia, um curso básico e depois ainda parte de um mais avançado. E no regresso a Moçambique, onde foi aprendendo com os mais velhos, foi logo convidado para trabalhar no Ministério da Cultura e também para dar aulas no Centro de Estudos Culturais. Foi nessa época que participou num grande evento que aconteceu no país, o primeiro Festival de Música e Canção Tradicional. Trabalhou com o fotógrafo José Cabral (1952 - 2025), com quem dividiu Moçambique em dois, tendo ficado Santimano com a zona norte. Essa viagem, feita ainda em tempo de paz, pô-lo em contacto com um país que não conhecia. Considera ainda hoje que foi uma viagem incrível.

Mais tarde, por se viverem momentos no "novo Moçambique" que era preciso registar, acabou por deixar a cultura e entrar no fotojornalismo. Foi então convidado para trabalhar no Jornal de Domingo,  acabado de nascer, sob direcção de Ricardo Rangel (1924 - 2009), onde aprendeu muito nos quatro ou cinco meses em que lá esteve. Até que em 1982 se mudou temporariamente para Lisboa, onde já há uns anos estava a família. Aí, fez um estágio na ANOP - Agência Noticiosa Portuguesa, para aprender a usar uma máquina de telefoto, que era um aparelho de transmissão. E de novo de regresso a Moçambique, foi trabalhar para a AIM - Agência de Informação de Moçambique, que tinha como director Carlos Cardoso, jornalista assassinado em 2000. Santimano cobriu, durante quatro ou cinco anos, a guerra, a fome, eventos políticos importantes, como o Acordo de Incomati, assinado em 1984 com a África do Sul, e viajou bastante com o Presidente Samora, por Moçambique e pelos países vizinhos. E as suas fotografias passaram a ser utilizadas internacionalmente, por exemplo para obter apoio em géneros alimentícios, necessários por causa da guerra. Na altura, era um sueco que na Agência dava o apoio logístico à secção de fotografia. 

Mas a sua relação com a Suécia, onde vive actualmente a maior parte do tempo, havia de começar mais tarde. Em 1986, estava com Ricardo Rangel num clube de jazz na Baixa de Maputo, quando um amigo lhe foi dizer que tinha de se mudar para uma mesa onde estava uma fotógrafa sueca. E ele foi, sendo que essa fotógrafa estava de visita a uma amiga que viria a ser, até hoje, a mulher de Santimano. Ela, médica dentista, trabalhava no Hospital Central, em Maputo, e aí começaram por viver dois anos. Até o seu pai ter ficado doente e ela ter precisado de regressar. Foram os dois, para uma estadia que se previa mais curta mas que acabou por durar cinco anos e que incluiu uma cerimónia de casamento. Ainda voltaram a Moçambique, onde viveram em família umas três ou quatro vezes. Até que em 2004, quando as filhas chegaram a um nível de ensino mais avançado, voltaram de novo à Suécia. E da última vez esteve seis anos sem regressar a Moçambique.

Na Suécia, por volta de 1991, tinha então uns 35 anos, percebeu que havia uma boa escola de fotografia na Universidade do Povo, a Escola de Fotografia Documental dos Países Nórdicos. Teve alguma dificuldade em entrar, pois quando viram os seus trabalhos acharam que já não precisava. Mas acabou por conseguir, por a escola ter achado interessante desenvolver uma relação com Moçambique, com África. Só foi preciso resolver a questão de quem iria tomar conta da filha pequena, por o curso funcionar em regime de internato. Acabou a ir e a voltar todos os dias a casa, numa viagem que demorava uns 40 minutos. Só não o fazia quando havia trabalho de laboratório ou festas à noite.

Talvez por causa das dificuldades com a língua, ou por os suecos serem um pouco fechados, Santimano decidiu fazer o trabalho final do curso em Moçambique. Foi Mia Couto, de visita ao The Nordic Africa Institute, na cidade de Uppsala, onde vive, quem lhe deu a ideia: "Desta vez nem precisas de ir para o interior, basta ficares por Maputo e veres a transformação da cidade". Referia-se aos mercados da sobrevivência, ou mercados paralelos, conhecidos como dumbanengues (que significa literalmente "confia nas tuas pernas"). E Santimano foi, com o objectivo de contar uma história através da fotografia.

Na Avenida 24 de Julho encontrou uma senhora de Inhambane, refugiada de guerra, que vendia refrescos e cigarros e que não tinha uma perna. Chamava-se  Luisa Macuàcuá e Sérgio Santimano foi-a fotografando no dia a dia. Vivia numa espécie de arrecadação, atrás do sítio onde vendia. E dizia que se a guerra acabasse queria voltar para a sua província. Isto, enquanto lhe ia perguntando "Quando é que vejo as fotos?". Santimano acabou por levar a sua história para o exame final e receber uma crítica positiva e, passado uns meses, um convite da escola para participar num outro projecto. E entretanto, em Outubro desse ano, 1992, em Roma, aconteceu o acordo de paz e Santimano teve a ideia de voltar a Maputo para acompanhar Luísa no regresso a Inhambane.

Recebeu para isso financiamento, mas quando chegou a Maputo ela já lá não estava. Santimano acabou a viajar para Inhambane de autocarro, na companhia de uma sobrinha de Luísa que já o conhecia. Foi uma viagem tensa, uma das primeiras depois da guerra terminar, com o motorista a contar histórias recentes do que tinha visto, a contar histórias de autocarros atacados, de autocarros queimados. Quando chegou à zona onde Luísa vivia, no mato, eram umas dez da manhã, foram directamente para a machamba, onde ela pegou numa cabaça e se começou a limpar, a refrescar, depois de terminado o trabalho agrícola. E nessa altura, Santimano acha que fez uma das suas melhores fotografias. Então, Luísa, a andar com uma muleta, mostrou-lhe os seus coqueiros, a sua casa destruída.

Em novo regresso à Suécia, juntou o primeiro e o segundo trabalho com Luísa Macuàcuá e fez uma grande exposição, a que chamou Caminhos, que foi reconhecida internacionalmente e publicada pela  francesa Revue Noir. Mais tarde, apresentou-a também em Moçambique, em Maputo e em Nampula, na Índia, e no Mali, onde participou, em Bamako, na Bienal Africana de Fotografia. A partir daí, fotografou também Moçambique em paz na província de Cabo Delgado, com uma bolsa da Academia de Arte Sueca, que ganhou entre 400 ou 500 candidatos. Documentou a província em duas viagens, de mais ou menos um mês cada, e mais tarde fez uma nova exposição, Cabo Delgado - Uma História Fotográfica sobre África, que também correu mundo, sobretudo na Europa e em África. Sempre a preto e branco.

Outro projecto grande em que trabalhou foi dedicado ao Niassa, onde a cooperação sueca estava presente, com apoio financeiro a projectos ligados à energia, à agricultura ou à construção de estradas. Durante cinco anos foi à província uma vez por ano, também durante um mês e tal, documentando o trabalho feito, o que deu origem ao livro Terra Incógnita, já esgotado. Entretanto, quando ia ao Niassa e regressava a Maputo, fazia uma paragem na Ilha de Moçambique. Aí, tomava uns banhos de mar, relaxava e fotografava muito. Geralmente fazia Kuamba - Nampula de comboio, umas dez horas com paragens em uns 68 apeadeiros. O comboio tinha um vagão restaurante, com uma cozinha a carvão,  servindo cerveja gelada e um prato de peixe e outro de galinha. Numa das vezes viajou com o irmão mais velho da mulher, que ainda hoje usa uma fotografia no Facebook, com um ar deliciado, que Santimano lhe tirou. Sobre a Ilha, fez uma exposição com o fotógrafo Luís Abelard, Ilha a Preto e Cor. 

Em Nacala e em Nampula teve ainda um projecto financiado pela Finlândia, ligado ao meio ambiente e ao combate à erosão, do qual resultou também um livro (mas não com muita qualidade, considera). Até que começou a ter interesse em fotografar a Índia. Talvez tudo tenha começado num dia de 1995, quando o telefone tocou e uma amiga do Canadá, que trabalhava na UNICEF, lhe disse que estava com um fotógrafo indiano que o queria conhecer. Era Raghubir Singh (1942 - 1999), que trabalhava para a Magnum e que tinha visto a exposição Caminhos durante e sua primeira estadia em África. Passou três dias com ele. Era do Rajastão, fez 18 livros só sobre a Índia, embora vivesse entre Londres, Paris e  Nova Iorque. Foi Raghubir que levou Santimano a expor em Mumbai a história de  Luisa Macuàcuá.

Nesse ano de 1995 foi ao Rajastão, onde fotografou com a sua Leika e sentiu pela primeira vez que estava num território onde as pessoas eram iguais a si, ninguém lhe ligava. "Em cada segundo estou a ver coisas novos, inéditas", disse na altura numa entrevista. Acabou por fazer em Maputo a exposição Índia Íntima, que foi um sucesso, talvez por haver muita população em Moçambique de origem indiana. Mais tarde, entre 2014 e 2018, Santimano regressou e viajou por Varanasi e por Deli, tendo esse trabalho originado nova exposição, que passou por Castelo de Vide, em Portugal, pela galeria Kulungwana, em Maputo, e pelo Serendipity Arts Festival, em Pangim, Goa, que se realiza habitualmente em Dezembro. 

Sérgio Santimano, que entretanto participou em Portugal nos  Encontros de Fotografia de Coimbra e em Madrid na PhotoEspaña (com a fotografia do miúdo com a máquina em barro), não sabe se lhe falta fotografar alguma coisa em Moçambique. Sente que à beira dos 70 já não tem a mesma genica de quando saltava dos camiões. Mas gosta de ter um sonho, que não sabe se vai realizar. Gostava de ir para Caxemira, inspirado pelo trabalho do fotógrafo Ragu Rey, que fotografou a Madre Teresa ou o Ghandi. Santimano viu um filme que a filha fez sobre o pai, viu as fotografias dele feitas já com oitenta e tal anos e ficou "alucinado", por serem de uma poesia incrível. Gostava de falar com ele (morreu entretanto já depois da conversa que deu origem a este retrato), comprar uma Leika digital e ir fotografar. Enquanto não acontece, pensa continuar a dividir o seu tempo entre Lisboa (para fugir ao inverno sueco), Goa (onde viveu com a família um ano entre 1960 e 1961), Maputo (onde talvez volte um ou dois meses por ano para ajudar a arrumar a Associação Moçambicana de Fotografia) e Uppsala ("A Coimbra lá do sítio"). As duas filhas casaram, tem quatro netos (um acabado de nascer) e todos estão na Suécia. Entretanto já se adaptou ao clima e até adora o verão por lá.



Luisa Macuàcuà, Inhampupo, província de Inhambane. Da série Caminhos, The Long Winding Road, 1993

Menino com Câmara de Barro, Pemba. Da série Cabo Delgado - Uma História sobre África, 1986

Retrato feito a partir de uma conversa realizada em Maputo, a  24 de Março de 2026. É o vigésimo quarto de uma série sobre moçambicanos a ser publicada aqui no blogue.


Retratos da série Moçambicanos:






6. Bruno Massada Chimuwaza, Maputo (Licenciado em Ensino de Matemática)

7. Sérgio Cândido Veiga, Maputo (Pintor, escritor, pescador, marinheiro, caçador)

8. Filipe José Couto (Padre Couto), Maputo (Ex-pároco, ex-reitor das universidades Católica e Eduardo Mondlane, professor)

9. Francisco Luís Vinho, Khongolote, Maputo (Skatista, fundador do Projecto Skate e Educação, licenciado em Informática)

10. Mário Gomes, Maputo (Empresário, aventureiro)


12. Meque Gonçalo, Lhanguene, Maputo (Estudante de Antropologia)

13. Gilberto Mendes, Teatro Gungu, Maputo (Actor, encenador, fundador do Teatro Gungu, desportista, ex-secretário de Estado do Desporto)

14. Carlos Serra, Casa de Vidro, Macaneta (Professor universitário, fundador da Cooperativa de Educação Ambiental Repensar)

15. Rosílio Ernesto Cuna, Maputo (Vendedor de roupas e capulanas)

16. Filomena Francisco Cume, Maputo (Fundadora e responsável pela Escolinha Comunitária Mamanas de Chamanculo)

17. César Tito Gremo Nota, Maputo (Militar, licenciado em Antropologia)

18. Joana Vasconcelos, Maputo (Capoeirista, fundadora do projecto Capoeira Para Um Futuro)

19. Luis Sozinho, Maputo (Artista, professor no Instituto Superior de Artes e Cultura)

20. Sebastião Coana, Maputo (Artista plástico)

21 Angelina Neves, Ponta do Ouro (Antiga secretária do Presidente Samora, fundadora da associação Khanimambo, da Ponta do Ouro)

22. Algemiro Pascoal Boane (Miro), Ponta do Ouro (Surfista, nadador salvador, um dos jovens do projecto Lwandi Surf)

23. Anísio Macicame, Maputo (Artista)

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